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domingo, 14 de outubro de 2007

Tirando a Barriga da Miséria

Ao longo desse ano, tenho cansado de ouvir aquela ladainha dos rivais, principalmente dos gambás e dos porcos, de que o São Paulo é o time mais beneficiado pela arbitragem. Tenho um amigo palmeirense que chegou ao ponto de dizer que nenhum erro capital de arbitragem foi cometido contra o São Paulo no campeonato todo. Eu poderia perguntar, como de fato pergunto a todos eles quando sou interpelado nesses termos, qual seria a razão de tais benefícios, uma vez que o Tricolor paulista e o Flamengo são os dois únicos clubes que ousam se opor, ainda que de forma tímida, aos manda-chuvas do futebol brasileiro, nomeadamente, Globo, CBF e Clube dos Treze. Como contra-exemplo, lembro também de dois pênaltis inexistentes marcados contra o São Paulo: um sobre Somália, no primeiro turno contra o Fluminense e outro sobre Danilinho, contra o Atlético no Mineirão. O primeiro causou a derrota por 1x0 e o segundo teria causado o mesmo, se não fosse o milagre de Rogério Ceni.

Contudo, não entrarei a fundo nesse ponto. Contentar-me-ei em observar que, independentemente desses caras terem ou não razão, nesse fim de semana todos os abutres que secam o Tricolor puderam tirar a barriga da miséria. De fato, não me lembro de um jogo recente em que o São Paulo tenha sido tão violenta e descaradamente roubado pelo juiz quanto na partida de ontem contra o Fluminense.

Devo dizer que no primeiro tempo o São Paulo não jogou rigorosamente nada e merecia mesmo sair para o vestiário em desvantagem. O time não passou do meio campo, foi dominado pelo tricolor carioca e chegou com perigo pela primeira vez apenas aos 42 minutos, em cabeçada de Leandro defendida por Fernando Henrique. Na primeira etapa não houve nenhum problema com arbitragem, a não ser o pênalti cometido por Fabiano (que, aliás, estreou muito bem), pênalti que pode ser classificado como duvidoso (todo pênalti de goleiro é duvidoso). Mas deixemos isso passar e aceitemos que a penalidade foi bem marcada.

No intervalo, Muricy trocou Jackson por Fernando, mas não mudou taticamente a equipe. O volante atuou pela direita, como ala mesmo. O que mudou foi a disposição do time, que partiu para cima e empatou logo no início, com André Dias, no rebote, após cobrança de escanteio e cabeçada de Brenoenbauer.

Mas foi aí que o juizinho mineiro resolveu aparecer da pior forma possível: cometendo lambanças imperdoáveis. O que é pior: lambanças que sempre prejudicaram o mesmo time. E, para o espanto de corintianos e palmeirenses, esse time foi o São Paulo. Tudo começou com o pênalti escandaloso não marcado em Aloísio. O São Paulo era então melhor na partida e poderia ter virado o jogo nesse lance, o que jogaria a pressão toda para cima do Flu e faria com que o time paulista pudesse atuar da maneira que mais gosta: administrando o resultado. Mas o senhor Ricardo Marques Ribeiro, um Zé Ninguém que queria fazer seu nome, não só ignorou a penalidade como ainda, muito presunçosamente, aplicou um amarelo em Aloísio.

Mas o pior estava por vir. O Fluminense equilibrou o jogo, que ficou lá e cá. Isso até o palhaço apitar mais um pênalti contra o São Paulo. Sem dúvida foi um dos pênaltis menos pênaltis dos últimos tempos. Gabriel entrou na área e mergulhou, enquanto Hernanes, com toda sua elegância de Falcão misturado com Toninho Cerezo, até tirou o corpo, mostrando para todos que não havia sequer tocado no lateral adversário. Mas o perspicaz ladrão não teve dúvida: apontou para a cal e soprou seu apito, emitindo o som dos larápios. Incrível como ele inverteu tudo: deixou de marcar pênalti claríssimo no Aloísio e deu cartão para ele por simulação. Depois, em vez de dar cartão para Gabriel, por manifesta simulação, marcou um pênalti visivelmente inexistente. Resumindo: dois erros (ou será que eu deveria grafar “erros”) que se transformaram em quatro. Sorte que Fabiano nos apresentou à sua estrela e pegou a penalidade, mostrando para o Bruno que eu estava certo quando vaticinei: nasce aqui o sucessor de Rogério Ceni.

Mas ainda não acabou, não. Ajudando a defesa, Aloísio cometeu uma falta absolutamente comum, falta de jogo, nada de mais. Mas lá vem o lazarento, já colocando a mão no bolso do calção. Quando vi essa cena, eu não acreditei: “Já não basta o filho da puta ignorar um pênalti claro para nós, marcar uma absurdidade de pênalti para o adversário... e agora essa?”. O pior não foi nem esse segundo cartão amarelo. Foi aquele primeiro, que Aloísio tomou por ter SOFRIDO um pênalti. Além de complicar o final de jogo para o São Paulo, o panaca do apito criou mais um problema para Muricy. Pois na partida seguinte (contra o Cruzeiro, diga-se de passagem) o Tricolor pode ficar sem atacantes: Tardelli saiu machucado e não sabemos a gravidade; Dagoberto é uma incógnita; Borges não volta tão cedo e Aloísio agora está suspenso. Desse jeito, será preciso lançar mão de Thiago Eto’o, que inclusive substituiu Tardelli no jogo de ontem, mas não teve chance de mostrar seu futebol, visto que entrou em uma fria.

Depois de tudo isso, ainda tive de escutar o Wright dizendo que o dito cujo é um dos juízes que irão passar por uma reciclagem da CBF. Não pude resistir à cornetada: “Reciclagem uma ova! Essa merda tem que ir pro lixo comum e não apitar nunca mais!”.

No fim das contas, considerando-se todas essas circunstâncias, o empate foi um excelente resultado para o São Paulo, principalmente porque Cruzeiro e Santos também não venceram. Espero que os abutres tenham ficado satisfeitos. Afinal, se eles queriam tanto ver o Tricolor ser roubado, a partida de ontem foi um prato cheio, ou melhor, um banquete dos mais fartos.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Pecados Alvinegros



"Sabe, cada vez mais eu acho que essa história de o botafogo jogar o futebol mais bonito do país é coisa de carência de carioca".
"Não, hmpf, com certeza. Vc acha"...
GOOOL!
"É claro que sempre existe a possibilidade de eu estar errado".

O dialógo acima foi realizado entre eu e meu amigo Wally ontem no começo do jogo Corinthians e Botafogo. Justo quando discutiamos o exagero aos elogios a equipe carioca, o Botafogo emplacou uma triangulação "de quadro negro", perfeita, pelo setor esquerdo da defesa corinthiana e, em menos de 30 segundos, abriu o placar no Maracanã. Logo no começo do jogo, o Corinthians (jogando num 4-4-2) foi obrigado a sair mais para o ataque e sua marcação, que já se mostrara ineficiente na primeira jogada do botafogo, se perdeu completamente e o botafogo teve completo domínio do meio de campo. O Botafogo compensava a falta de um legítimo homem de "cadencia" no meio de campo com uma movimentação constante, toques curtos e triangulações rápidas pelas laterias do campo. Sem dúvida, o Botafogo pode ser considerado o time mais "entrosado" do futebol brasileiro. Já no Corinthians, Gustavo Nery estava completamente omisso. Encarregado de dar o toque de qualidade no meio de campo, o jogador nada fez. Nem armou, nem ajudou na marcação, de forma que Joílson e seus companheiros passavam facilmente em seu setor. Aliás, o único setor do campo pelo qual o Botafogo realmente levava perigo ao alvinegro paulista. Já que o veterano Athirson, sem ritmo e sumido na ala esquerda, deixava o time "penso". Sem toque de bola, as partidas do Corinthians ao ataque se limitavam as carregadas de bola de Rosinei, que eram pouco efetivas, visto que o jogador era obrigado a vir buscar a bola em seu campo de defesa. Era só uma questão de tempo para o segundo gol do Botafogo. E ele veio aos 30 minutos em cobrança de falta de Lúcio Flávio. Falta na qual o Botafogo, que tanto chorou contra as arbitragens (embora, "estranhamente", não tenha nada a reclamar do tribunal esportivo), foi ajudado pelo arbítro que deveria ter marcado o impedimento de André Lima que já havia sido lançado por Jorge Henrique (antes que esse fosse derrubado).
No segundo tempo, o Botafogo voltou a campo com Ricardinho no lugar de Athirson. Agora, contando com um ala esquerdo, o Botafogo pode alargar ainda mais o campo e envolver ainda mais a marcação corinthiana em seu toque de bola. Tamanho foi o envolvimento que Carlos Alberto (completamente tonto) ao tentar recuar uma bola de cabeça para Felipe, acabou lançando André Lima que fez o terceiro gol do alvinegro carioca logo aos 7 minutos do segundo tempo. O restante do jogo foi de domínio pleno do Botafogo. Carpegiani tentou mudar o time com a entrada de Bruno Bonfim e Wilson, mas em nada alteraram o mando do Botafogo sobre o jogo. Contudo, conforme o segundo tempo foi passando, faltou ao Botafogo um pouco de "copismo". O time carioca se negou a tirar a velocidade do jogo ou a se fechar. Contudo, devido a um certo abuso no preciossismo das jogadas, acabou também por não fazer o quarto gol. E, permitiu assim, que, em cruzamento de Wilson, Bruno Bonfim desse sobre-vida ao Corinthians.
Que o Botafogo traz uma boa vantagem para São Paulo (pode perder até de 1 a 0) e é favorito, isso é. Porém, o time carioca, ao pecar pela soberba e pelo preciosismo, deixou de decidir a sua classificação em um jogo no qual foi muito superior a seu adversário. Agora, cabe ao time do Botafogo fazer um jogo inteligente (o que não quer dizer defensivo, muito pelo contrário) em São Paulo. E aos torcedores do Botafogo orar aos deuses ludopédicos para que perdoem o time de seus pecados capitais.

Bruno (que está precisando dormir mais...)

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Dunga e o pombo do Skinner


Nos meados dos anos 40, buscando uma explicação fundamentada no comportamento para as superstições humanas, o psicólogo americano B. F. Skinner realizou o seguinte experimento: pegou uma série de pombinhos (contrariando o clichê, Skinner preferia pombos a ratos...) famintos e colocou cada um em uma gaiola. Às gaiolas estava acoplado um mecanismo que nelas despejava uma pequena quantidade de comida em intervalos regulares. Tal mecanismo não poderia ser, de forma alguma, alterado pelo compotamento do pombo. O experimento (embora os resultados sejam severamente questionados) revelou que os pombos acabavam por associar seu comportamento com a entrega da comida e , tendo feito essa co-relação, repetiam esse comportamento como forma de obter mais comida. Por exemplo, se, por coincidência, um pombo esteve com a asa direita levantada durante algumas vezes em que o mecanismo de entrega de comida se ativou, este passaria a levantar a asa direita sempre que quisesse comer. Ou seja, o pombo passava a "acreditar" que era o seu levantar de asa direita que lhe garantia o alimento.

Agora voltemos ao futebol. Como não foi postada aqui uma autópsia do jogo Brasil e Chile (mea culpa), incluirei aqui uma breve explicação da mudança tática realizada por Dunga no segundo tempo da partida (no primeiro, o time apresentou os mesmos problemas citados na autópsia anterior). Vencendo por 1 a 0, Dunga resolveu apostar em contra-ataques pelas pontas que visavam "alargar" o campo para abrir a defesa adversária. Para isso, Dunga precisava de velocidade e de força física. Por isso, substitui Anderson por Júlio Baptista. E posicionou o meia bem aberto pela esquerda, praticamente sem responsabilidades defensivas. Robinho, que jogava por ali, foi então deslocado pela direita em função semelhante (sempre aberto ou em "diagonal" com Júlio Baptista). Com isso, Elano foi deslocado da direita para a frente dos cabeças-de-área (Mineiro e Gilberto Silva). Dunga mudou, então, o esquema de um 4-4-2 para um "pseudo 4-3-3" (ou 4-3-2-1 como preferem a ESPN e o FIFA 07). Na prática, contudo, Elano atuou mais como um terceiro volante do que como um homem de ligação. Embora, a nomenclatura (como o segundo volante, em teoria, é menos defensivo que o primeiro, o terceiro deveria ser ainda menos que os dois...) indicasse que Elano estaria mais livre para apoiar, não foi isso que ocorreu. Os laterais ganharam um pouco mais de liberdade (em ataques alternados), mas, o posicionamento de Elano como um terceiro "primeiro-volante" manteve o problema de falta de chegada ao ataque. Com isso, o Chile ganhou espaço e sentiu que poderia empatar o jogo. Com o meio campo perdido, Dunga substituiu Elano e colocou um primeiro-volante de ofício: Josué. Pouco depois, Robinho, em contra-ataques rápidos, fez dois gols que garantiram a vitória.

Quando a manutenção desse esquema do final segundo tempo com os três volantes (Gilberto Silva, Mineiro e Josué) foi anunciada como a escalação inicial contra o Equador, parecia óbvio que o técnico brasileiro parecia contentar-se com o empate. Contudo, quando perguntado sobre a retranca, Dunga negou-a veementemente. Alegando que a seleção tinha feito mais gols com três volantes do que com dois. E, essa é a parte assustadora. O Brasil fez dois gols quando tinha três volantes (como ele disse), mas não "porque" tinha três volantes (como parece acreditar). O Brasil fez dois gols porque o Chile gostou do jogo e se lançou ao ataque para buscar o empate, o que expôs em excesso zaga a contra-ataques (o que tem grandes chances de ser letal quando se enfrenta um time com jogadores velozes como Robinho). Dunga agiu como o pombo supersticioso de Skinner ao acreditar que seus três volantes resolveriam o problema de criação de jogadas de ataque. Mesmo liberando os laterais, mantém-se o mesmo número de homens "proibidos" de passar da linha do meio-de-campo. Bastou ouvir a escalação e a explicação do técnico Dunga para que eu me preparasse para o jogo ridiculo que estava por vir e me amaldiçoasse ferozmente por ter apostado em um 4 a 1 para a seleção no oráculo dos corneteiros (eu devia estar bêbado quando dei esse palpite. Não é possível...). Mas, mais do que decepcionado pelo futebolzinho ridículo que estava destinado a assistir, mais do que puto por ter me ferrado no Oráculo dos corneteiros, fiquei intrigado pela dúvida que surgiu em minha mente: seria o técnico brasileiro um retranqueiro envergonhado (e mentiroso) ou um "pombo supersticioso"? Lembrando dos jogos anteriores, a segunda me pareceu mais plausível. Afinal, nunca tivemos sinal algum de vergonha. Mas, de retranca...

Bruno
(que irá ao XV Encontro Internacional de RPG no sábado e não sabe se estará de volta a tempo de ver o próximo jogo da seleção).

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Um time que joga como time e um gol que o Brasil não faz


Depois da pífia copa do ano passado, eu havia prometido a mim mesmo que não assistiria nem comentaria mais jogos de seleções. Promessa vã. Bastou começar a Copa América e lá estava eu acompanhando atentamente as pelejas. Ontem, comecei a ver Argentina x EUA a partir da metade do primeiro tempo (pois antes, eu me maravilhava com as belíssimas jogadas de Aloísio, Edcarlos, Richarlysson e companhia, na espetacular pelada entre Figueirense e São Paulo, que não por acaso terminou com um exuberante 0x0). Esqueçam isso... e vamos para a Argentina.

Os portenhos saíram perdendo, mas reagiram logo em seguida com um gol de Crespo (aliás, um gol puramente crespiano). A partir daí, o domínio argentino foi absoluto, embora eles não conseguissem criar muitas chances de gol. De qualquer modo, percebia-se nitidamente que Riquelme, Verón, Cambiasso e Mascherano dominavam o meio campo e a única coisa que faltava era um pouco mais de incisão na chegada ao ataque. Incisão que apareceu no segundo tempo junto com Messi, que saiu das trevas e deixou Crespo de frente para o crime. O artilheiro aproveitou e marcou mais um gol típico dos grandes ruins-que-fazem-gol. Em seguida, veio o terceiro gol, uma obra de arte: jogada de pura técnica de uma equipe que prima pela coletividade. Depois, Riquelme ainda deu um presente para Tévez definir os 4x1. Mas é naquele terceiro gol que eu irei me deter um pouco mais.

Ao longo do jogo, eu ficava pensando em uma coisa que acabou por ser corroborada por esse terceiro gol. Cheguei, de fato, à seguinte conclusão: a Argentina joga como um time. Uma observação que parece óbvia e idiota, mas que na verdade não o é, considerando-se uma outra que me ocorrera já antes desse jogo começar: eu nunca vi a seleção brasileira jogar como um time. E não vou nem falar sobre a seleção da CBF e do fantoche Dunga. Falo de todas as seleções brasileiras dos últimos dezessete ou dezoito anos.

A última que jogou de forma convincente foi aquela da copa de 1994. Com efeito, o time de Parreira, embora fosse um horror de se ver, efetivamente jogava como uma equipe. E isso é importante para explicitar o que eu quero dizer aqui: jogar bem, na minha concepção, não é dar espetáculo, resgatar o futebol arte etc. Jogar bem é ter um esquema tático definido que faça com que os jogares atuem no limite da sua capacidade individual e coletiva. Isso é “jogar como um time”, o que, por sua vez, é um sinônimo de “jogar bem”. E é exatamente isso que a Argentina realiza sempre e o Brasil nunca.

O Brasil, desde que eu comecei a ver futebol, ganha jogos na base da marra e/ou da individualidade de algum craque que, de vez em quando, tem lampejos geniais. E isso inclui a tão louvada seleção de Felipão de 2002. Na minha opinião, aquele time de bem montado não tinha nada. O Brasil foi seguindo em frente graças a muita dedicação, ajudas de arbitragem (ah, o gol anulado de Wilmots, da Bélgica) e, principalmente, graças a uma sorte sobrenatural. Foi passando por adversários péssimos e acabou ganhando aquela copa medíocre (não se esqueçam que a pior Alemanha de todos os tempos chegou à final, a Turquia ficou em terceiro e a Coréia em quarto).

Depois daquela Copa, a coisa ficou ainda pior. O time de Felipão, bem ou mal, conseguia pelo menos se impor e ganhar os jogos. De lá para cá, nem isso. Hoje, qualquer um ganha do Brasil: basta ter um time que saiba congestionar o meio de campo, armar contra-ataques razoáveis e que tenha um bom cabeceador para as bolas levantadas (sorte que o Borghetti não veio).

Mas vamos voltar àquela história de jogar como time. A incompetência das seleções brasileiras recentes em mostrar um futebol minimamente coletivo reflete-se nos próprios gols que o Brasil costuma marcar. Os tentos são sempre frutos de jogadas individuais, bobagens da defesa adversária e bolas paradas. O único gol coletivamente belo de que eu me lembro foi aquele dos 4x1 sobre a própria Argentina, na Copa das Confederações: um oásis em um deserto de mediocridade.

Falando em Argentina, voltemos a ela. Tudo bem, o time americano é muito frágil, veio desfalcado etc, etc. E a Argentina, apesar da goleada, nem de longe apresentou um futebol exuberante. Mas acontece que o Brasil também já enfrentou adversários muito piores do que o time dos EUA e nunca jogou absolutamente nada. Os portenhos, pelo contrário, podem até perder o campeonato, mas sempre apresentam um futebol que ao menos deixa seus torcedores com o consolo de que a seleção fez o melhor que podia. E o melhor que eles podem fazer, e efetivamente fazem, é jogar como equipe. Aquele terceiro gol mostrou muito bem isso: a bola partiu da defesa e foi passando de pé em pé até chegar a Verón. Este, mostrando-se ainda um excelente “knocking on heaven’s door”, abriu na esquerda para Crespo, que tocou na ultrapassagem para Heinze. O lateral cruzou e Aimar veio de trás para dar uma cabeçada fulminante e colocar nas redes. Esse foi, por excelência, um “gol de time” . E não foi um oásis no deserto, uma vez que sempre vemos os hermanos anotarem esse tipo de tento. Quando a bola balançou as redes, eu até me levantei do sofá, quase que comemorando, numa espécie de reconhecimento (e com uma pequena dose de inveja) a um time que joga como time e a um gol que o Brasil não faz.

César Eduardo Zambon escreveu aqui seu primeiro texto sério desde que começou a postar nesse blog.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Seleção renovada, problemas renovados

Desde que eu me lembre (o gol de Caniggia em 90 é minha lembrança mais antiga da seleção), minha maior preocupação como torcedor da seleção brasileira é a defesa. Não havia porque se preocupar com o ataque, afinal, ele sempre foi técnico, talentoso, veloz, surpreendente, genial, fascinante... , mas a defesa... sempre me fez roer as unhas. A qualquer momento os zagueiros podiam bater cabeça, se posicionarem mal e, principalmente, ficarem pregados no chão em uma bola alçada na área. Agora, imagine a estranheza que tomou conta de mim na última Copa do Mundo. Os heróis da seleção não foram os atacantes (e meia-atacantes) que compunham o fabuloso quadrado mágico e sim o miolo de zaga: Lúcio (aquele que quase nos entregou em 2002 pra Inglaterra) e Juan (além é claro, do Zé Roberto). A coisa fica ainda mais estranha quando Dunga, que nunca havia treinado time algum, assume o comando da seleção. A escolha da CBF, embora polêmica, possui certa racionalidade. Atribuindo o fracasso da copa à falta de vontade, os cartolas escolheram um ex-jogador que pudesse simbolizar essa qualidade. Não havia escolha mais adequada que Dunga. O novo técnico, por sua vez, parece ter atribuído o fracasso na última copa a falta de apoio ao setor defensivo. Dunga demonstra isso na escolhas dos laterais: preferindo a força física e o alto poder de marcação (Maicon e Gilberto) à precisão nos cruzamentos e apoio ao ataque (Kleber e Daniel Alves). Além disso, Dunga joga com dois cabeças de área de ofício, Gilberto Silva e Mineiro, porém, dá a impressão de ter pedido ao último que maneire em suas aparições como elemento surpresa. Tudo isso visando aumentar a solidez do sistema defensivo brasileiro.

Contudo, foi essa dedicação à marcação que condenou o time brasileiro. No início do primeiro tempo, o México permitia uma fácil saída de bola da seleção brasileira, apertando a marcação apenas na intermediária. Porém, com o excesso de zelo dos laterais e dos volantes, Diego era obrigado a buscar a bola no campo de defesa. Com Robinho e Wagner Love fortemente marcados, Elano isolado na direita (mal tocou na bola), os volantes e os laterais impedidos de subirem, Diego logo ficava sem opções. E, assim, o Brasil mesmo com domínio territorial, não conseguia criar chances reais de gol (com exceção do gol anulado, mas repare que tal lance surgiu de uma das raras subidas de um dos laterais, no caso, Maicon). Aos poucos, o México foi ganhando terreno no meio campo, até que Castillo, calculando bem a saída do zagueiro Alex, recebeu ótimo lançamento, chapelou Maicon (um pouco atrasado na cobertura) e tocou para o gol antes que Doni pudesse dividir com ele. Golaço!

Poucos minutos depois, Diego, na intermediária da seleção brasileira (vindo buscar a bola cada vez mais atrás), perdeu a bola e fez falta. A cobrança foi boa, porém Doni optou por um golpe de vista que flertava em excesso com o descaso: 2 a 0 México. O segundo gol transformou a covardia brasileira em entrega.

Dunga voltou para segunda etapa com Afonso e Anderson no lugar de Diego e Elano. Sem Diego (e com dois atacantes de área), coube a Robinho e a Anderson (formando uma diagonal, um com o outro) dar movimentação e municiar o ataque brasileiro. Com sua velocidade e seus dribles, Robinho assumiu a responsabilidade e não só conduziu a bola ao ataque como apareceu na área para cabecear, chutou de longe, chutou sem ângulo...

Anderson, com muita movimentação e bons passes, garantiu, depois de Robinho, o posto de melhor brasileiro na partida. Os laterais passaram a subir mais e cada cruzamento foi desesperador para a zaga mexicana (tão boa em jogadas pelo alto quanto uma zaga de pebolim...). Contudo, nem mesmo com a melhora na disposição o Brasil conseguiu fazer gols. O time apático do primeiro tempo se transformara em uma equipe desorganizada. Com o andar do relógio e o aumento do desespero, os erros de posicionamento começaram a aparecer mesmo entre os melhores em campo e o Brasil ficou completamente exposto aos contra ataques. A goleada só não saiu devido à incompetência dos mexicanos que insistiam em não tocar a bola rapidamente para evitar que seus atacantes entrassem em posição de impedimento...para complementar, no fim do jogo, Castillo, o mesmo do golaço, conseguiu perder um gol incrível.

Assistindo a esse jogo, cheguei a conclusão que é impossível negar que a renovação de Dunga já foi bem sucedida em pelo menos um aspecto: a minha preocupação com a seleção. Agora, é o ataque que me faz roer as unhas.

Brunão
(que passou a roer as unhas por não ter mais cabelos para arrancar...)

quinta-feira, 14 de junho de 2007

2007: A Saga de Uma Libertadores Medíocre

La Bombonera: Um estádio que ganha jogo
Podem me chamar de exigente, enjoado, chato, rabugento etc., mas que essa Copa Libertadores foi medíocre, ah isso foi. Já começamos com o atual campeão, o Internacional, sendo eliminado na primeira fase, juntamente com o tradicionalíssimo River Plate. Depois, vimos o mais bem-sucedido clube brasileiro na história da competição, o São Paulo, fazer campanha pífia e ser eliminado nas oitavas de final, já tendo ido longe demais pelo futebol que jogou. Em seguida, nos espantamos com o aparecimento de um tal Cúcuta que, com ares de Once Caldas, foi bem longe (mais do que deveria) e parou somente na semi final. Por fim, o melhor time da competição, o Santos, foi eliminado por causa da maldita regra dos gols marcados fora de casa.

Após tudo isso, chegaram à final dois times medíocres, embora tradicionais. Comecemos pelo vice-campeão (ou alguém em sã consciência ainda acredita na virada gaúcha?). O que se pode dizer de um time cujo “craque” é o Tcheco e que aposta suas fichas nos “talentos” de Lúcio, Sandro Goiano e Tuta? Ah, claro, alguém irá dizer: “Mas o forte do Grêmio é a raça, a determinação e a força”. Muito bem, meu caro, mas então eu te pergunto: o que mais demonstra o Grêmio além dessas três virtudes? Absolutamente nada. Ora, convenhamos,... a equipe gaúcha, tecnicamente, é uma lástima.

Passemos ao campeão. O Boca Juniors, deixando de lado qualquer trocadilho infame e previsível, é um time meia-boca. Aquela defesa,... santos deuses ludopédicos! O goleiro, nosso glorioso Caranta (não sei se escrevi certo), rebate mais bola do que o Doni e o Gomes juntos; aquele Morel é uma espécie de André Dias argentino; e o tal do Díaz (que, aliás, parece mais um capanga de traficante colombiano) deve ser contra-indicado, em caso do torcedor ter histórico de problemas cardíacos; e mesmo o Riquelme, por mais que o elogiem, considero-o bem abaixo do Riquelme dos outros títulos boquenses. Resumindo: um time que fica muito distante dos Bocas 2000 e 2003, que venceram, respectivamente, Palmeiras e Santos. Aqueles sim eram timaços: uma defesa segura, com o goleiro Córdoba e depois Abondanzieri, o Córdoba zagueiro, além de um Riquelme no auge, Schelotto, Delgado, Tévez... todos sob o comando do mestre Bianchi.

O jogo de ontem foi um perfeito resumo da campanha boquense nessa Libertadores: garante sua classificação ganhando jogos na marra dentro da Bombonera. Ontem teve ainda uma ajuda impressionante do Zeus ludopédico: abriu o placar com um gol esquisito e em impedimento, quando era amplamente dominado pelo adversário. Depois, foi auxiliado pela brilhante performance de Sandro Goiano, que mais uma vez executou com perfeição suas especialidades: dar pontapés e ser expulso de campo. Com o Grêmio lutando para garantir o menor dos desastres, o Boca, embora não tenha criado mais muitas chances, acabou ampliando com um gol de falta de Riquelme... uma falta cobrada em estilo nada Riquelmeano. E, para completar, os portenhos ainda “marcaram” aquele terceiro gol: um tento que, caso o jogo estivesse acontecendo na Bahia, todos diriam ser obra de algum deus afro-brasileiro que fora instigado por certas oferendas galináceas, enterradas atrás da meta de Saja.

Enfim, Boca e Grêmio fizeram um jogo atípico e mais uma vez o time argentino ganhou com a ajuda sobrenatural da sua mística arena (e com a ajuda nada sobrenatural do bandeirinha, claro). O time da Bombonera se sagrará hexacampeão na semana que vem, graças muito mais à ausência de adversários decentes do que a seus próprios méritos. Sempre que concluo algo desse tipo, a saber, que o campeão de um torneio deve mais à incompetência dos outros do que à sua própria competência, sou obrigado a dizer que o torneio em questão foi medíocre. Arrisco-me até a dizer o seguinte: essa só não foi a pior Libertadores do século, porque nosso bravo Cúcuta ficou pelo caminho e perdeu a chance de repetir o imortal Once Caldas 2004.

E o Riquelme estava Gripado


Como temiam os gremistas e, do outro lado da fronteira Brasil-Argentina, desejavam Maradona, Tevez e todos os outros fanáticos torcedores da equipe mais popular da Argentina, o Boca Juniors fez valer sua fama de time copeiro vencendo, e muitíssimo bem, a apática equipe do Grêmio. Mas Francis Ford Coppola, presente no La Bombonera, se entender de futebol ao menos um décimo do que entende de cinema, certamente achou o “filme” previsível demais. O sempre impiedoso Boca, empurrado por sua torcida e regido pelo maestro feioso, pero genial, Roman Riquelme, atropelaria o time gremista, cuja maior virtude é a paixão – e isso, frente a times como o Boca, é pouco. Isso era o que se esperava. Isso foi o que aconteceu.

Contudo, o Boca temível só deu as caras no segundo tempo do jogo. Na primeira etapa, embora tenha assustado algumas vezes o arqueiro gremista, Saja, que, por sinal, é argentino, mostrou-se bastante acanhado durante a maior parte do tempo. Mesmo quando fez seu primeiro gol, num instante irônico da partida, era o Grêmio quem estava ligeiramente melhor, ameaçando ameaçar o gol argentino. Cabe dizer que o gol foi ilegal. Resultou de uma cobrança de falta de Riquelme (sempre ele), que lançou o impedido Palermo, que, tentando finalizar a gol, acabou passando para Palácios. Este só teve o trabalho de empurrar, desajeitado, para o gol vazio do Grêmio.
Mesmo com a vantagem no placar, o Boca parecia estranhamente desinteressado. O segundo tempo mostraria que o time argentino, assim como o segundo Don Corleone de Coppola, tinha sob a manga muito mais do que fazia parecer aquele jeito lento de jogar futebol. Afinal, um Corleone é sempre um Corleone, assim como o Boca, que sempre é o Boca. Mas o que é o Boca? Aliás, o que é o Boca jogando no La Bomboneira e regido por Riquelme? É um time que pressiona o adversário, explora os seus erros e, acima de tudo, faz gols.

No segundo tempo, apareceu, enfim, o Boca que se temia. O time argentino adiantou a marcação, acelerou o jogo e começou a pressionar o time gremista. Nervoso, Sandro Goiano acabou expulso, merecidamente, por atingir o rosto de Bonega. Com o buraco deixado no meio campo, o Boca tomou, de vez, conta do jogo. Num lance incrível, Teco salvou, em cima da linha, o chute dado por Palácios após triangular com facilidade, dentro da área gremista, com Clemente e Cardozo. Poucos minutos depois, contudo, Riquelme cavou uma falta na entrada da área e, na cobrança, aproveitou o buraco deixado por Lucas na barreira e fez o segundo gol do jogo. Se o placar parasse por aí, até que o prejuízo seria pequeno para o time brasileiro, mas não parou.
Nos minutos finais, após uma seqüência belíssima de dribles de Riquelme, finalizada com um forte chute que o goleiro Saja espalmou para o lado da área, e não para fora do campo, como é o certo, Palermo cruzou, Ledesma cabeceou dividindo a bola com o goleiro e fez, um pouco por mérito próprio, outro pouco por causa dos então assustados zagueiros gremistas, o terceiro e ultimo gol da noite.

Don Roman Riquelme Corleone, embora gripado, venceu o jogo. A esquadra gremista deve ter ficado mal acostumada marcando os Souzas, Hugos e Pedrinhos do Brasil.

Ah, faltou dizer o que o Grêmio fez no segundo tempo: o Grêmio tomou dois gols no segundo tempo, e isso foi tudo. Aliás, vou tentar ser justo: Lúcio e Carlos Alberto não pareceram sentir a pressão. Jogaram bem.


Na próxima quarta, se quiser ser campeão, o Grêmio precisará, a meu ver, de um daqueles geradores de improbabilidades infinitas. Só isso. Mas Coppola está mais para os dramas do que para as ficções científicas. Uma pena.


Denis Barbosa Cacique (Vulgo Zagueiro Miope) – 14 de junho de 2007

terça-feira, 12 de junho de 2007

Santos, Grêmio e uma Pilha de Pratos


Como numa casa é necessário que alguém se responsabilize por lavar os pratos, não pude assistir ao primeiro tempo do jogo de volta entre Santos e Grêmio, pela Copa Libertadores da América.

Perdendo o primeiro tempo, perdi também, no sentido pragmático da expressão, o que houve de mais importante na partida, o belo gol de Diego Souza, do time gaúcho, logo no início do jogo. Sim, o que houve de mais importante, já que a virada santista, a despeito do belo espetáculo que proporcionou, foi insuficiente para levar o time paulista à tão desejada final sul-americana, fosse contra o desconhecido Cucuta, da Colômbia, ou contra o sempre perigoso Boca Juniors, da Argentina.

Penso que, apesar do fracasso, a equipe da baixada poderia ter saído de campo com a cabeça erguida. O gol sofrido logo no início do jogo poderia ter servido como um banho de água fria nos jogadores santista, porém, pelo contrário, serviu apenas para despertá-los ainda mais. Afoitos, eles lançaram-se ao ataque em busca do empate, que veio já nos acréscimos, com Renatinho, jogador escolhido por Luxemburgo para substituir Maldonado, contundido.

No segundo tempo, o time santista fez mais dois gols. Não julgo que tenha merecido alcançar o quarto, que, de fato, não alcançou. Todos os três resultaram daqueles típicos lances estranhos que até mesmo o narrador se perde ao tentar descrever: a bola bate em um, rebate em outro, sobra e, de repente, morre nas redes. Foram gols feios.

Ora, mas se o time fracassou por não assegurar a classificação e, além disso, venceu com três gols feios, que motivo pode haver para que se diga que a equipe santista poderia ter deixado o campo de cabeça erguida? Duas coisas, técnica e vontade, qualidades que, à medida que o futebol vai tornando-se cada vez mais profissional e preocupado com o preparo físico dos atletas, ficam cada vez mais difíceis de encontrar numa equipe, sobretudo reunidas.

O time santista, ainda que fora da final, reúne essas duas qualidades. É muito agradável ver Zé Roberto e Kleber jogarem. Parece que, para eles, dominar e conduzir a bola, mesmo quando a marcação adversária é cerrada, como faz eximiamente o time gremista, são tarefas das mais fáceis.

Com tanta técnica, podia acontecer do time santista pecar por falta de vontade, como ocorreu à seleção brasileira na ultima copa, mas, pelo contrário, ainda que quase sempre de modo desorganizado e cometendo muitos erros, foi incansável na defesa e no ataque.

Ao torcedor santista fanático, talvez essas coisas passem despercebidas ou, sendo notadas, não sirvam de consolo. A mim, mero lavador de pratos, torcedor dum outro time paulista, importa mais o espetáculo.

Denis Barbosa Cacique (vulgo Zagueiro Míope) – 7 de junho de 2007