domingo, 15 de julho de 2007

A Kind of Magic


Essa brevíssima crônica não é, nem poderia ser, uma “autópsia do jogo”. Autópsias são sérias: invadem a alma de uma partida e encontram ali a sua essência, adornada por esquemas táticos e descrições minuciosas dos jogadores. Mas autópsias são para jogos sérios. A final da Copa América 2007, entre Argentina e Brasil, esteve longe de ser um jogo sério.

Certamente você já assistiu a pelo menos um daqueles filmes da Sessão da Tarde em que um personagem troca de “alma” com o outro, ainda que o outro seja um mero cachorro ou coisa do tipo. Foi o que aconteceu no jogo de hoje: Brasil e Argentina trocaram as almas. Para tanto, contudo, não foi preciso que convocassem um pai de santo que, ao som de tambores baianos, trataria de “cambiar” o espírito de cada seleção. O autor da mágica talvez nem tenha se dado conta do feito, já que ele fazia parte do grupo a quem menos interessa essa mudança. O nome do dito mágico é Javier Mascherano, também conhecido como Freddie Mercury.

Vai me dizer que você nunca notou a semelhança entre o falante cabeça de área argentino e o exagerado, aliás, ex-exagerado, cantor inglês? Os dentes ressaltados, a semi-calvície e o espírito exaltado não deixam dúvidas de que Freddie Mercury não morreu, virou purpurina, aliás, argentino! Mas, dirá o leitor contrariado, falta o bigode. É claro que falta, pois, do contrário, ao invés de disfarce, um clone.

E eu, que já suspeitava disso muito antes da partida de hoje, apenas confirmei a minha desconfiança ao ver um Brasil que triangulava como uma Argentina, fazia golaços como uma Argentina e vencia como uma Argentina; e uma Argentina que falhava como um Brasil, padecia de criatividade como um Brasil, e repetia os mesmos erros como um Brasil.

Individualmente, dava-se o mesmo. Roman Riquelme, bem marcado, pouco produziu; além de ter perdido um gol que, se tivesse ocorrido, além de lindo, certamente teria mudado a história da partida. Ayala, zagueiro sempre confiável, acabou marcando um belíssimo gol, mas contra (o mestre Bruno tem razão: perto da área, há de se cruzar rasteiro, que os zagueiros fazem contra). Do lado brasileiro, apenas Robinho fazia uma partida ruim. Por outro lado, até Love, enfim, fez uma boa partida. Foi dele a arrancada e o passe que resultaram no gol de Daniel Alves, que entrara no lugar de Elano. Gilberto foi fraco como sempre, talvez não haja mágica que resolva seu caso. Juan e Alex estavam imbatíveis na zaga. Doni, muito longe de ser um arqueiro confiável, realizou defesas difíceis e interveio de maneira precisa nos diversos chuveirinhos argentinos. Mineiro e Josué, relembrando os velhos tempos de São Paulo, dominaram a cabeça da área brasileira: que saudades!

Perplexo, só pude supor: “it’s a kind of magic”.

Denis Barbosa Cacique – Campinas, 15 de julho de 2007 (depois do ultimo jogo do São Paulo pelo Brasileirão 2006, esse foi o primeiro jogo que assisti acompanhado do meu pai: cornetar o Galvão em família é muito melhor)

A Favor do Bom Futebol


Escreverei uma rápida pré-cornetada, cerca de três horas antes do início da grande final entre Brasil e Argentina. Se eu tentasse fazer alguma previsão, esse texto acabaria se transformando inevitavelmente em mais um palpite furado do Oráculo dos Corneteiros. Então, não direi aquilo que eu acho que vai acontecer, mas sim aquilo que eu quero que aconteça.

Ignorando todas as bobagens que dizem os patriotas e os idiotas em geral, não tenho a menor vergonha em afirmar que torcerei pela Argentina. E o motivo é muito simples: ao menos que meu time de coração esteja em campo, eu torço sempre para o bom futebol e para que o melhor vença. E o melhor, sem dúvida nenhuma e independentemente do que venha a ocorrer na final, é a Argentina: um time que joga organizadamente, com um meio campo técnico e talentos geniais. Além disso, trata-se de uma equipe inteligente, que toca a bola com tranqüilidade e acaba vencendo seus adversários naturalmente. Já do outro lado, vemos um "time" totalmente despreparado, mal treinado, sem esquema... um time de pelada. E pior: uma equipe que se propõe a jogar com cautela, com quatro volantes de pouquíssima técnica e que, ainda assim, tem uma defesa vulnerável (tomar dois gols do Uruguai, como diria Neto, é brrruincadeura).

Além da mediocridade técnica do time brasileiro, outra coisa que me leva a torcer contra são os "fatores extra-campo". Não vou nem falar do honradíssimo presidente da CBF. Basta ficar naquele Américo Faria... só de olhar na cara dele, dá nojo. E o Dunga, apesar de ser apenas um fantoche, também merece perder, para largar de ser imbecil. Vir dizer que o Brasil joga igual à Argentina, porque eles também têm três volantes... é o cúmulo da ignorância e da hipocrisia. Lógico, ainda bem que um dos "volantes" é o Verón, ainda bem que o Gilberto Silva tem uma ótima saída de bola como o Mascherano e, principalmente, ainda bem que Júlio Baptista, o "armador" do Brasil, é genial e criativo como o Riquelme.

Enfim, o Brasil pode até ganhar, daquele jeito... sendo sufocado o tempo todo e achando um gol de bola parada no finalzinho, ou segurando o empate e ganhando nos pênaltis etc. Afinal, o futebol é o mundo das improbabilidades infinitas. Só que, se o Brasil ganhar, isso será mais uma punhalada no já surrado bom futebol e mais um prêmio para a mediocridade dos idiotas. Uma vitória só servirá para o Galvão cacarejar que nem uma galinha choca. Mas desta vez ocorre que, queiram ou não admitir, a Argentina é sim favoritíssima (pronto, acabei fazendo a maldita previsão). Se tudo correr bem e nenhum fato extraordinário e inusitado mudar o curso dos acontecimentos, os portenhos ganharão logo mais seu décimo quinto título. E, sinceramente,... espero que eles ganhem mesmo.

César, que não suporta as patriotadas galvanísticas e não tem a menor vergonha em admirar o futebol argentino.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Anatomia da partida

por Juliana
Primeiro tempo, antes do apagão lá (vou deixar guardadinha a mi

Primeiro tempo, antes do apagão lá (vou deixar guardadinha a minha piada sobre o governo venezuelano), o Brasil estava jogando muito, o nosso primeiro gol foi lindo, uma jogada feita, bem armada, à la Argentina (desculpem-me os mais fervorosos). Mas daí, quando a luz apagou, o jogo parou e tudo voltou, o Uruguai veio pra cima, conforme o esperado, pois antes estava meio apático. E a gente se perdeu em campo. Daí veio o empate e o gelo na nossa fogueira. Gostaria de acrescentar que o nosso goleiro fez umas boas defesas, bonitas de se ver, que até me deram gosto, e eu voltei a acreditar que ele estava treinado para ir até em bola de gandula...


Viramos, finalmente, ao fim do primeiro tempo, o que nos deu um pouco mais de tranqüilidade. Perdemos um gol que seria fantástico, lindo mesmo! Mas é praxe hoje em dia.


No segundo tempo, o Brasil recuou, a zaga se mostrou bem suicida, o Uruguai partiu pra cima e ficamos enrolando para ver se mantínhamos o resultado... um jogador deles até foi buscar a bola que saiu pela linha de fundo, para evitar perder tempo. E o gol deles foi inevitável. Daí partimos para uma tentativa de virar o jogo _o que não deu certo.

Vale ressaltar, que, apesar de gostar muito dele no São Paulo, o Josué estava mais para décimo segundo jogador do Uruguai, talvez por querer um ‘revival’, ou coisa assim, quando viu o Lugano e o Mineiro em campo, essa coisa toda do tri mundial do tricolor paulista... mas pífio, cada coisa de dar arrepios. Outro jogador que estava triste em campo era o Wagner Love, puta merda, não acertava uma no segundo tempo, perdoem-me o palavrão.


Tem de se falar dos lances esquisitos, das faltas do Lugano no Robinho sem bola, e coisas assim, mas é essa a profissão do Lugano, sempre falei isso. Se precisar de alguém que bate e não é pego e é mais cara de pau do que um jacarandá, é o Lugano...


Daí fomos à cobrança de pênaltis... O Donnuts (como eu carinhosamente me refiro ao goleiro desgraçado de ruim do Brasil) defendeu_ bem parecida com a defesa do Gati, goleiro do Cruzeiro, contra o Atlético Mineiro_ nesse momento ele me pareceu com um pouco mais de graça, é que ele não me convence muito, não adianta. Tudo ocorreu a nosso favor... até que... ...Afonso, puxa vida, só o Dunga acredita nele, e dito e feito, o cara chutou na trave! Ficamos no pau a pau com o Uruguai de novo. Cheguei a conclusão que pior que pênaltis para testar um doente cardíaco, não tem... Daí vem o Fernando... que eu não sei de onde tiraram ele e ‘pum’, na trave outra vez. Ah... desisti, perdíamos ali a nossa passagem para a final (venhamos e convenhamos, nosso futebol nem estava tão convincente e eu ainda perdi o jogo contra o Chile, aquele em que fizemos 6). Mas ai voltou tudo a ficar igual. Até que o fi da mãe do Donnuts, adiantado ou não (rsss), pegou! Daí ele se tornou um goleirão, o salvador da pátria, e a gente está na final. Esse negócio de goleiro adiantado e pegar pênalti, não é algo a que torcedores do São Paulo gostem de se ater, então, vou fingir que eu não vi. Igual o juiz fingiu que não viu uns 2 pênaltis a nosso favor durante a partida. Pelo menos um deles eu juro que era pênalti mesmo.


Que venha México ou Argentina, tanto faz, eu me contento bem com um vice nesse caso... mas que não seja de lavada, hein?!


P. S.: A piadinha... ia brincar que não parecia que vendem tanto petróleo lá na Venezuela, até esqueceram de pagar a conta de luz... (ok, era bem mais pesada que isso...).



Juliana (que não assinou ao estilo do blog ...)

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Dunga e o pombo do Skinner


Nos meados dos anos 40, buscando uma explicação fundamentada no comportamento para as superstições humanas, o psicólogo americano B. F. Skinner realizou o seguinte experimento: pegou uma série de pombinhos (contrariando o clichê, Skinner preferia pombos a ratos...) famintos e colocou cada um em uma gaiola. Às gaiolas estava acoplado um mecanismo que nelas despejava uma pequena quantidade de comida em intervalos regulares. Tal mecanismo não poderia ser, de forma alguma, alterado pelo compotamento do pombo. O experimento (embora os resultados sejam severamente questionados) revelou que os pombos acabavam por associar seu comportamento com a entrega da comida e , tendo feito essa co-relação, repetiam esse comportamento como forma de obter mais comida. Por exemplo, se, por coincidência, um pombo esteve com a asa direita levantada durante algumas vezes em que o mecanismo de entrega de comida se ativou, este passaria a levantar a asa direita sempre que quisesse comer. Ou seja, o pombo passava a "acreditar" que era o seu levantar de asa direita que lhe garantia o alimento.

Agora voltemos ao futebol. Como não foi postada aqui uma autópsia do jogo Brasil e Chile (mea culpa), incluirei aqui uma breve explicação da mudança tática realizada por Dunga no segundo tempo da partida (no primeiro, o time apresentou os mesmos problemas citados na autópsia anterior). Vencendo por 1 a 0, Dunga resolveu apostar em contra-ataques pelas pontas que visavam "alargar" o campo para abrir a defesa adversária. Para isso, Dunga precisava de velocidade e de força física. Por isso, substitui Anderson por Júlio Baptista. E posicionou o meia bem aberto pela esquerda, praticamente sem responsabilidades defensivas. Robinho, que jogava por ali, foi então deslocado pela direita em função semelhante (sempre aberto ou em "diagonal" com Júlio Baptista). Com isso, Elano foi deslocado da direita para a frente dos cabeças-de-área (Mineiro e Gilberto Silva). Dunga mudou, então, o esquema de um 4-4-2 para um "pseudo 4-3-3" (ou 4-3-2-1 como preferem a ESPN e o FIFA 07). Na prática, contudo, Elano atuou mais como um terceiro volante do que como um homem de ligação. Embora, a nomenclatura (como o segundo volante, em teoria, é menos defensivo que o primeiro, o terceiro deveria ser ainda menos que os dois...) indicasse que Elano estaria mais livre para apoiar, não foi isso que ocorreu. Os laterais ganharam um pouco mais de liberdade (em ataques alternados), mas, o posicionamento de Elano como um terceiro "primeiro-volante" manteve o problema de falta de chegada ao ataque. Com isso, o Chile ganhou espaço e sentiu que poderia empatar o jogo. Com o meio campo perdido, Dunga substituiu Elano e colocou um primeiro-volante de ofício: Josué. Pouco depois, Robinho, em contra-ataques rápidos, fez dois gols que garantiram a vitória.

Quando a manutenção desse esquema do final segundo tempo com os três volantes (Gilberto Silva, Mineiro e Josué) foi anunciada como a escalação inicial contra o Equador, parecia óbvio que o técnico brasileiro parecia contentar-se com o empate. Contudo, quando perguntado sobre a retranca, Dunga negou-a veementemente. Alegando que a seleção tinha feito mais gols com três volantes do que com dois. E, essa é a parte assustadora. O Brasil fez dois gols quando tinha três volantes (como ele disse), mas não "porque" tinha três volantes (como parece acreditar). O Brasil fez dois gols porque o Chile gostou do jogo e se lançou ao ataque para buscar o empate, o que expôs em excesso zaga a contra-ataques (o que tem grandes chances de ser letal quando se enfrenta um time com jogadores velozes como Robinho). Dunga agiu como o pombo supersticioso de Skinner ao acreditar que seus três volantes resolveriam o problema de criação de jogadas de ataque. Mesmo liberando os laterais, mantém-se o mesmo número de homens "proibidos" de passar da linha do meio-de-campo. Bastou ouvir a escalação e a explicação do técnico Dunga para que eu me preparasse para o jogo ridiculo que estava por vir e me amaldiçoasse ferozmente por ter apostado em um 4 a 1 para a seleção no oráculo dos corneteiros (eu devia estar bêbado quando dei esse palpite. Não é possível...). Mas, mais do que decepcionado pelo futebolzinho ridículo que estava destinado a assistir, mais do que puto por ter me ferrado no Oráculo dos corneteiros, fiquei intrigado pela dúvida que surgiu em minha mente: seria o técnico brasileiro um retranqueiro envergonhado (e mentiroso) ou um "pombo supersticioso"? Lembrando dos jogos anteriores, a segunda me pareceu mais plausível. Afinal, nunca tivemos sinal algum de vergonha. Mas, de retranca...

Bruno
(que irá ao XV Encontro Internacional de RPG no sábado e não sabe se estará de volta a tempo de ver o próximo jogo da seleção).

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Um time que joga como time e um gol que o Brasil não faz


Depois da pífia copa do ano passado, eu havia prometido a mim mesmo que não assistiria nem comentaria mais jogos de seleções. Promessa vã. Bastou começar a Copa América e lá estava eu acompanhando atentamente as pelejas. Ontem, comecei a ver Argentina x EUA a partir da metade do primeiro tempo (pois antes, eu me maravilhava com as belíssimas jogadas de Aloísio, Edcarlos, Richarlysson e companhia, na espetacular pelada entre Figueirense e São Paulo, que não por acaso terminou com um exuberante 0x0). Esqueçam isso... e vamos para a Argentina.

Os portenhos saíram perdendo, mas reagiram logo em seguida com um gol de Crespo (aliás, um gol puramente crespiano). A partir daí, o domínio argentino foi absoluto, embora eles não conseguissem criar muitas chances de gol. De qualquer modo, percebia-se nitidamente que Riquelme, Verón, Cambiasso e Mascherano dominavam o meio campo e a única coisa que faltava era um pouco mais de incisão na chegada ao ataque. Incisão que apareceu no segundo tempo junto com Messi, que saiu das trevas e deixou Crespo de frente para o crime. O artilheiro aproveitou e marcou mais um gol típico dos grandes ruins-que-fazem-gol. Em seguida, veio o terceiro gol, uma obra de arte: jogada de pura técnica de uma equipe que prima pela coletividade. Depois, Riquelme ainda deu um presente para Tévez definir os 4x1. Mas é naquele terceiro gol que eu irei me deter um pouco mais.

Ao longo do jogo, eu ficava pensando em uma coisa que acabou por ser corroborada por esse terceiro gol. Cheguei, de fato, à seguinte conclusão: a Argentina joga como um time. Uma observação que parece óbvia e idiota, mas que na verdade não o é, considerando-se uma outra que me ocorrera já antes desse jogo começar: eu nunca vi a seleção brasileira jogar como um time. E não vou nem falar sobre a seleção da CBF e do fantoche Dunga. Falo de todas as seleções brasileiras dos últimos dezessete ou dezoito anos.

A última que jogou de forma convincente foi aquela da copa de 1994. Com efeito, o time de Parreira, embora fosse um horror de se ver, efetivamente jogava como uma equipe. E isso é importante para explicitar o que eu quero dizer aqui: jogar bem, na minha concepção, não é dar espetáculo, resgatar o futebol arte etc. Jogar bem é ter um esquema tático definido que faça com que os jogares atuem no limite da sua capacidade individual e coletiva. Isso é “jogar como um time”, o que, por sua vez, é um sinônimo de “jogar bem”. E é exatamente isso que a Argentina realiza sempre e o Brasil nunca.

O Brasil, desde que eu comecei a ver futebol, ganha jogos na base da marra e/ou da individualidade de algum craque que, de vez em quando, tem lampejos geniais. E isso inclui a tão louvada seleção de Felipão de 2002. Na minha opinião, aquele time de bem montado não tinha nada. O Brasil foi seguindo em frente graças a muita dedicação, ajudas de arbitragem (ah, o gol anulado de Wilmots, da Bélgica) e, principalmente, graças a uma sorte sobrenatural. Foi passando por adversários péssimos e acabou ganhando aquela copa medíocre (não se esqueçam que a pior Alemanha de todos os tempos chegou à final, a Turquia ficou em terceiro e a Coréia em quarto).

Depois daquela Copa, a coisa ficou ainda pior. O time de Felipão, bem ou mal, conseguia pelo menos se impor e ganhar os jogos. De lá para cá, nem isso. Hoje, qualquer um ganha do Brasil: basta ter um time que saiba congestionar o meio de campo, armar contra-ataques razoáveis e que tenha um bom cabeceador para as bolas levantadas (sorte que o Borghetti não veio).

Mas vamos voltar àquela história de jogar como time. A incompetência das seleções brasileiras recentes em mostrar um futebol minimamente coletivo reflete-se nos próprios gols que o Brasil costuma marcar. Os tentos são sempre frutos de jogadas individuais, bobagens da defesa adversária e bolas paradas. O único gol coletivamente belo de que eu me lembro foi aquele dos 4x1 sobre a própria Argentina, na Copa das Confederações: um oásis em um deserto de mediocridade.

Falando em Argentina, voltemos a ela. Tudo bem, o time americano é muito frágil, veio desfalcado etc, etc. E a Argentina, apesar da goleada, nem de longe apresentou um futebol exuberante. Mas acontece que o Brasil também já enfrentou adversários muito piores do que o time dos EUA e nunca jogou absolutamente nada. Os portenhos, pelo contrário, podem até perder o campeonato, mas sempre apresentam um futebol que ao menos deixa seus torcedores com o consolo de que a seleção fez o melhor que podia. E o melhor que eles podem fazer, e efetivamente fazem, é jogar como equipe. Aquele terceiro gol mostrou muito bem isso: a bola partiu da defesa e foi passando de pé em pé até chegar a Verón. Este, mostrando-se ainda um excelente “knocking on heaven’s door”, abriu na esquerda para Crespo, que tocou na ultrapassagem para Heinze. O lateral cruzou e Aimar veio de trás para dar uma cabeçada fulminante e colocar nas redes. Esse foi, por excelência, um “gol de time” . E não foi um oásis no deserto, uma vez que sempre vemos os hermanos anotarem esse tipo de tento. Quando a bola balançou as redes, eu até me levantei do sofá, quase que comemorando, numa espécie de reconhecimento (e com uma pequena dose de inveja) a um time que joga como time e a um gol que o Brasil não faz.

César Eduardo Zambon escreveu aqui seu primeiro texto sério desde que começou a postar nesse blog.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Seleção renovada, problemas renovados

Desde que eu me lembre (o gol de Caniggia em 90 é minha lembrança mais antiga da seleção), minha maior preocupação como torcedor da seleção brasileira é a defesa. Não havia porque se preocupar com o ataque, afinal, ele sempre foi técnico, talentoso, veloz, surpreendente, genial, fascinante... , mas a defesa... sempre me fez roer as unhas. A qualquer momento os zagueiros podiam bater cabeça, se posicionarem mal e, principalmente, ficarem pregados no chão em uma bola alçada na área. Agora, imagine a estranheza que tomou conta de mim na última Copa do Mundo. Os heróis da seleção não foram os atacantes (e meia-atacantes) que compunham o fabuloso quadrado mágico e sim o miolo de zaga: Lúcio (aquele que quase nos entregou em 2002 pra Inglaterra) e Juan (além é claro, do Zé Roberto). A coisa fica ainda mais estranha quando Dunga, que nunca havia treinado time algum, assume o comando da seleção. A escolha da CBF, embora polêmica, possui certa racionalidade. Atribuindo o fracasso da copa à falta de vontade, os cartolas escolheram um ex-jogador que pudesse simbolizar essa qualidade. Não havia escolha mais adequada que Dunga. O novo técnico, por sua vez, parece ter atribuído o fracasso na última copa a falta de apoio ao setor defensivo. Dunga demonstra isso na escolhas dos laterais: preferindo a força física e o alto poder de marcação (Maicon e Gilberto) à precisão nos cruzamentos e apoio ao ataque (Kleber e Daniel Alves). Além disso, Dunga joga com dois cabeças de área de ofício, Gilberto Silva e Mineiro, porém, dá a impressão de ter pedido ao último que maneire em suas aparições como elemento surpresa. Tudo isso visando aumentar a solidez do sistema defensivo brasileiro.

Contudo, foi essa dedicação à marcação que condenou o time brasileiro. No início do primeiro tempo, o México permitia uma fácil saída de bola da seleção brasileira, apertando a marcação apenas na intermediária. Porém, com o excesso de zelo dos laterais e dos volantes, Diego era obrigado a buscar a bola no campo de defesa. Com Robinho e Wagner Love fortemente marcados, Elano isolado na direita (mal tocou na bola), os volantes e os laterais impedidos de subirem, Diego logo ficava sem opções. E, assim, o Brasil mesmo com domínio territorial, não conseguia criar chances reais de gol (com exceção do gol anulado, mas repare que tal lance surgiu de uma das raras subidas de um dos laterais, no caso, Maicon). Aos poucos, o México foi ganhando terreno no meio campo, até que Castillo, calculando bem a saída do zagueiro Alex, recebeu ótimo lançamento, chapelou Maicon (um pouco atrasado na cobertura) e tocou para o gol antes que Doni pudesse dividir com ele. Golaço!

Poucos minutos depois, Diego, na intermediária da seleção brasileira (vindo buscar a bola cada vez mais atrás), perdeu a bola e fez falta. A cobrança foi boa, porém Doni optou por um golpe de vista que flertava em excesso com o descaso: 2 a 0 México. O segundo gol transformou a covardia brasileira em entrega.

Dunga voltou para segunda etapa com Afonso e Anderson no lugar de Diego e Elano. Sem Diego (e com dois atacantes de área), coube a Robinho e a Anderson (formando uma diagonal, um com o outro) dar movimentação e municiar o ataque brasileiro. Com sua velocidade e seus dribles, Robinho assumiu a responsabilidade e não só conduziu a bola ao ataque como apareceu na área para cabecear, chutou de longe, chutou sem ângulo...

Anderson, com muita movimentação e bons passes, garantiu, depois de Robinho, o posto de melhor brasileiro na partida. Os laterais passaram a subir mais e cada cruzamento foi desesperador para a zaga mexicana (tão boa em jogadas pelo alto quanto uma zaga de pebolim...). Contudo, nem mesmo com a melhora na disposição o Brasil conseguiu fazer gols. O time apático do primeiro tempo se transformara em uma equipe desorganizada. Com o andar do relógio e o aumento do desespero, os erros de posicionamento começaram a aparecer mesmo entre os melhores em campo e o Brasil ficou completamente exposto aos contra ataques. A goleada só não saiu devido à incompetência dos mexicanos que insistiam em não tocar a bola rapidamente para evitar que seus atacantes entrassem em posição de impedimento...para complementar, no fim do jogo, Castillo, o mesmo do golaço, conseguiu perder um gol incrível.

Assistindo a esse jogo, cheguei a conclusão que é impossível negar que a renovação de Dunga já foi bem sucedida em pelo menos um aspecto: a minha preocupação com a seleção. Agora, é o ataque que me faz roer as unhas.

Brunão
(que passou a roer as unhas por não ter mais cabelos para arrancar...)

terça-feira, 26 de junho de 2007

Socorro! O Pan está chegando. Levem-me para Pasárgada!


Socorro! Está chegando o momento mais terrível do ano para os amantes fiéis do esporte mais popular do mundo. Estamos às portas do Pan-americano. Estamos às portas do triste mês em que nosso amado ludopédio será chutado para escanteio e abandonado à desonrante condição de coisa secundária pela grande mídia. Tudo bem, isso irá durar menos do que trinta dias, mas, mesmo assim, os efeitos serão trágicos. Já estão sendo. De fato, o pior de tudo é que desta vez o Pan será realizado no Brasil e, com isso, a cobertura midiática será massiva... meu Deus! O desastre é sem precedente: não há Olimpíada ou visita do Papa que se compare.

Antes de mais nada, já vou logo dizendo que eu não teria absolutamente nada contra o Pan-americano, contanto que ele ficasse quietinho no seu canto, enquadrado nas proporções reais da sua irrisória magnitude e, principalmente, sem atrapalhar coisas mais importantes. Todavia, o que está acontecendo é justamente o oposto. Jogos do Brasileirão estão sendo adiados sem dó e o prejuízo ao certame já foi consumado.

Este problema dos adiamentos prejudica diretamente os clubes. Equipes que vivem bons momentos, como Botafogo e Corinthians, tiveram jogos adiados para um longínquo outubro: sabe-se lá qual será a situação de seus elencos em tal momento. Ah, claro, algum comentarista oficial, daqueles politicamente corretos, irá objetar: “Mas foi só agora que descobriram que tem Pan? Além do mais, temos de dar espaço para os outros esportes, blá, blá, blá...”. Eu respondo: meu filho, não interessa quando descobriram, se foi agora, há um ano ou há três anos: os jogos seriam adiados do mesmo jeito, ou, mesmo que não fossem adiados, seriam transferidos de local e ainda teríamos um sério problema.

Afinal, a principal vantagem do sistema de pontos corridos é que ele coloca todos os times em igualdade de condições: dezenove jogos em casa, dezenove fora. Com a transferência, porém, Botafogo x Corinthians teria que acontecer em alguma Volta Redonda ou Juiz de Fora da vida. E não adianta: ninguém vai me convencer que Volta Redonda é a casa do Botafogo ou de qualquer outro dos grandes cariocas. Já não bastam os anos anteriores? Em 2005 e parte de 2006, três deles (o Vasco foi exceção porque tem São Januário) tiveram de realizar seus jogos no interior fluminense, por causa da... reforma no Maracanã, que foi feita por causa do... Pan! E o clássico dos milhões, Flamengo x Vasco? Onde ele seria disputado? Aracaju ou Natal, provavelmente (aliás, transferir clássicos para o Nordeste é um expediente lamentável, que já foi utilizado várias vezes, com o intuito de aumentar as rendas). Agora, que me desculpem, mas um Flamengo x Vasco fora do Maracanã não é um Flamengo x Vasco.

E o pior é que todo esse problema está sendo criado não apenas por causa dos Jogos Pan-americanos em si, mas também e principalmente por causa do tal show de abertura. Um palhaço não sei de onde virá para cá fazer mais uma daquelas apresentações chatíssimas, com coreografias manjadas e monótonas: um bando de patetas vestidos de bandeira dançando para lá e para cá. E, por causa disso, o Maracanã tem que ser fechado e o Brasileirão melado. O espírito de Mario Filho deve estar chorando em algum canto do céu ludopédico e nem mesmo Nélson Rodrigues será capaz de consolá-lo.

O pior é que depois da abertura vêm os jogos propriamente ditos. Sinceramente, não sei por que tanto escândalo diante de uma competiçãozinha mixuruca que não serve para absolutamente nada. Sou até obrigado a trazer de volta à tona a nefasta figura do finado Roque Citadini (ou será que ele ainda está vivo?), ex-dirigente corintiano, que, embora especialista em dizer asneiras, certa vez nos presenteou com a seguinte pérola: “Pan-americano é uma espécie de Jogos Abertos do Interior que tem uns gaiatos falando espanhol”. Impossível não concordar com ele. Com efeito, não consigo ver nenhum atrativo especial em uma porcaria de competição, desprezada por todos os países e que até a República Dominicana foi capaz de “organizar”.

Mas o pior (acho que eu já disse “mas o pior” umas dez vezes) é que o prejuízo não se restringe aos clubes, mas afeta também o torcedor. Já estamos conhecendo aquela sensação desagradável de olhar para a tabela e ver que a maioria dos times disputou sete jogos, outros seis, alguns poucos oito etc. E isso ficará ainda pior daqui para frente. Será impossível saber quem é o líder de verdade, o vice, quem está na Libertadores, quem está sendo rebaixado...

Isso sem falar no sofrimento que a TV nos causará. Além das mesas redondas e noticiários esportivos, que ficarão infestados pelas baboseiras do Pan, até as próprias transmissões dos jogos do Brasileirão serão maculadas. Que inferno! Você está lá, tranqüilo, assistindo a uma disputada peleja, quando, de repente, surge no canto da tela aquela maldita janelinha. Em seguida, um miserável de um repórter interrompe o narrador e começa a vociferar histericamente: “Estamos aqui ao vivo com a final dos 800 metros do Nado Pintassilgo!”. E o jogo lá, a toda: bola na trave, expulsão, pênalti, gol... e o lazarento do repórter não pára de falar do Nado Pintassilgo! Mas o pior (de novo) é que, quando a importantíssima prova de natação finalmente chega ao fim, com a vitória de algum americano e o brasileiro em último lugar, e você pensa que terá seu futebol de volta, o narrador manda aquela frase funesta, uma verdadeira punhalada no estômago do torcedor: “Agora, faremos uma pausa no futebol para acompanhar a finalíssima do salto ornamental triplo com vara”. Cara, a sorte da minha TV é que eu não tenho uma arma em casa. E o pior de tudo (ah, como eu sou repetitivo) é que todas as TVs que transmitem futebol (Globo, Bandeirantes e Sportv) farão cobertura total do Pan...

O pior (eu juro que é a última vez) é que não há nenhuma Liliput, Cucolândia das Nuvens, Utopia, e nem sequer uma ilha de Lost onde possamos nos refugiar durante esse tétrico mês. Ah, bem que poderia existir uma Pasárgada ludopédica, um país onde o único esporte praticado fosse o futebol. Minhas malas já estariam prontas. Eu nem precisaria ser amigo do rei, nem exigiria ter a mulher que eu quisesse, muito menos escolher a cama. Ficar livre do salto triplo com vara ornamental e seus afins já seria mais do que o suficiente.