terça-feira, 18 de setembro de 2007

Garrincha: o gênio de que ouvi falar

Pouco importa que Manoel dos Santos, Mané Garrincha, jamais tenha, de fato, apelidado de “João” ao menos um dos defensores que tentavam, na maioria das vezes inutilmente, conter os seus avanços pelo flanco direito dos gramados. Na verdade, teria sido um jornalista quem criara esta estória, mais uma a dar corpo ao emaranhado de fatos e invenções que adornam o mito mané. Mas, neste caso, a questão do “disse” ou “não disse” não tem, por exemplo, a mesma relevância da polêmica em torno da mais célebre frase de Maquiavel, aquela que ele jamais disse, a saber, “que os fins justificam os meios”. Porque Maquiavel, além de não ter enunciado a frase que veio tornar-se a máxima do chamado “maquiavelismo”, também não elaborou, como se costuma supor, uma teoria política ressonante com essa máxima. Em Maquiavel, os fins não justificam os meios, e a idéia contrária só é possível graças a uma leitura equivocada dos textos do pensador. Mas, no caso do Mané, o fato dele não ter enunciado o “João” não muda em nada o fato dele ter dado vida, não a um somente, mas a centenas deles.

Para quem não viu Mané Garrincha jogar, como é, obviamente, o meu caso, é muito difícil descobrir, por trás dos discursos saudosistas e inflamados daqueles que o viram, testemunhas ainda boquiabertas, como o ex-jogador e amigo do Mané, Nilton Santos, os jornalistas e escritores Armando Nogueira, Nelson Rodrigues e Carlos Drummond de Andrade, quem foi e como era, realmente, o jogador. O que esses discursos apaixonados fazem é construir a imagem de alguém que estava mais para extraordinário que para o humano. Mané seria, assim, um desses seres sobrenaturais, fugidos do Olimpo, que de tempos em tempos o esporte traz à forma humana, tais como os futebolistas Pelé, Maradona, Cruyff, Zico, Leônidas da Silva, Puskas, Zidane, Yashin, Platini, Rogério Ceni e Beckenbauer, ou os incríveis tenista e nadador, respectivamente, Roger Federer e Michael Phelps, ou ainda, do boxe, os pugilistas Mohamed Ali e Mike Tyson, e, por fim, do basquete, o realmente fenomenal Michael Jordan. Para todos esses atletas, a conquista da vitória parece ser apenas um evento acidental e sem importância quando comparada aos seus poderes de tornar reais até mesmo as idéias mais ousadas que brotam na mente de um atleta. A eles tudo parece possível e, o que é mais assombroso, tremendamente fácil.

A idéia de que Garrincha, dentre outros gênios acima citados, não tenha sido um humano, como sugeriu, brincando, meu amigo corneteiro César, talvez seja a premissa necessária para explicar como alguém que foi tão brilhante dentro das quatro linhas pode, fora delas, definhar de maneira tão triste, vítima, sobretudo, do alcoolismo. Garrincha não cabia nos estreitos limites morais da sociedade brasileira, menos ainda, como se sabe, nos limites do seu próprio corpo. Não o julgo, apenas lamento o rumo que sua vida tomou, desembocando na doença, solidão e tristeza. No fim das contas, parece ser um erro querer dissociar o Mané jogador do Mané pai de família, boêmio e amante, do mesmo modo que é absurdo imaginar que suas pernas pudessem ser tortas dentro de campo e, fora dele, corretas. A respeito disso tudo, sábias mesmo são as palavras de Nelson Rodrigues: “um Garrincha transcende todos os padrões de julgamento. Estou certo de que o próprio Juízo Final há de sentir-se incompetente para opinar sobre o nosso Mané”.

O que havia de mais encantador no jogador Garrincha, ao menos de acordo com o que os relatos sobre ele permitem crer, era como ele, indiferente aos outros vinte e um jogadores em campo e até mesmo à lógica sem graça do perde e ganha do futebol, parecia ser o praticante solitário de uma modalidade esportiva diferente, criada por ele mesmo, a partir duma costela do futebol. É claro que a carreira futebolista de Garrincha foi repleta de vitórias. Ele, ao lado de Pelé e outros gênios do futebol, conquistou a Copa do Mundo de 1958, na Suécia, e, quatro anos depois, no Chile, com os gênios nas costas, a de 1962. Mas não foram simplesmente as medalhas e os troféus conquistados por Garrincha o que o elevaram à condição de mito, mas principalmente o drible, sua arte maior.

Armando Nogueira brinca que, “para Mané Garrincha, o espaço de um pequeno guardanapo era um enorme latifúndio”. É daí que afirmo que ele era o praticamente solitário de uma modalidade própria, que não era futebol, embora brotasse dele. Quando Mané parava em frente aos marcadores adversários e punha em marcha aquele ritual de ir mas não ir, de que importava o gol? Garrincha encarava os marcadores, dava vida a eles e, depois, num movimento rápido, mas simples, deixava-os para trás. Às vezes até mesmo empurrava a bola um pouco à frente, ameaçando entregá-la ao adversário, depois a recolhia, e partia. Armando Nogueira tem uma tese interessantíssima sobre os dribles de Garrincha, para ele, “o drible é, em essência, fingir que se vai fazer uma coisa e fazer outra; fingir, por exemplo, que se vai sair pela esquerda, e sair pela direita. Pois o Garrincha é a negação do drible. Ele pega a bola e pára; o marcador sabe que ele vai sair pela direita; o público todo sabe que ele vai sair para a direita; seu Mané mostra mais uma vez que vai sair pela direita; a essa altura, a convicção do marcador é granítica: ele vai sair pela direita; Garrincha parte e sai pela direita. Um murmúrio de espanto percorre o estádio: o esperado aconteceu, o antônimo do drible aconteceu”.

Essa descrição me faz lembrar um pequeno trecho da resenha de Marcelo Hessel, do Omelete, sobre o filme “Missão: Impossível III”. O crítico ressalta a marca que o diretor J. J. Abrams imprime no filme. O cineasta, antes de fazer com que o mocinho derrube os vilões coadjuvantes (daqueles coadjuvantes anônimos e mudos que são derrubados aos montes em filmes de ação), tem o cuidado de fazer com que a câmara se ocupe de apresentá-los: aproxima-se deles, mostra com um close os seus rostos, dá-lhes vida. Segundo Hessel, “é como se Abrams se importasse com eles, segundos antes de autorizar o trucidamento”. Abrams também faz algo semelhante em Lost, série televisiva de que é criador. Os fãs de Lost já estão acostumados ao seu estilo: antes de submeter os personagens às aventuras da história, Abrams tem o cuidado de apresentar minuciosamente cada um deles, com flashbacks.

Se procura-se fazer a mesma comparação com outros grandes dribladores, não dá certo. Maradona, por exemplo, com aquele golaço que marcou contra a Inglaterra na Copa de 1986, estaria muito mais para Quentin Tarantino que para J. J. Abrams. O deus argentino avançou com tanta velocidade e desprezo por seus marcadores, mais fugindo deles do que os encarando, que esses nem mesmo pareciam ter rosto; eram verdadeiramente coadjuvantes, panos de fundo da ação. Quem assistiu a Kill Bill vol. I e lembra-se da cena no restaurante japonês, certamente compreende a comparação.

Igual a Garrincha, em relação ao estilo de drible, jamais houve. Mas, a fim de esclarecer a diferença entre ele e os outros, cabe trazer à memória dois lances, ambos protagonizados por craques brasileiros. Romário, jogando pelo Flamengo, em 1999, pela Copa Rio São Paulo, pára com a bola nos pés já dentro da grande área; em frente a ele, a poucos centímetros, Amaral, o infeliz marcador; com um rápido elástico, num dos dribles mais incríveis que já vi, Romário deixa para trás o marcador corintiano atordoado e, com um leve toque do bico da chuteira, já quase sem ângulo, marca um gol simplesmente fantástico. Aí a torcida adversária teve que aplaudir. Amaral, tendo certamente comprometido a coluna, saiu do Corinthians pouco tempo depois.

O outro lance é protagonizado por Robinho, jogando pelo Santos, no final do Campeonato Brasileiro de 2002, contra o Corinthians. Com uma coragem e ousadia raras, sintomas de molecagem, ele avançou em direção ao marcador, o lateral direito Rogério, com as pedaladas que tornaram, definitivamente, a “pedalada” sua marca registrada. Atordoado com a ousadia do moleque franzino, Rogério foi recuando, recuando, recuando, entrou na área e, já fora de si, cometeu o pênalti.

A essência desses lances, tão fortemente marcados por um estilo mané, pode ser explicada citando-se Drummond: “se há um deus que regula o futebol, esse deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios”.

Jogadas como as que o Mané fazia tão facilmente, bastando para tanto, que quisesse - e cujo estilo alguns raros jogadores foram capazes de imitar, como fizeram Rivelino e Romário, e fazem Robinho e Cristiano Ronaldo - produzem duas reações: alegria, dada a graça do drible, e pena, do “João”.

Denis Barbosa Cacique – 15 de setembro de 2007 (o bolão só termina quando o bolão acaba)

domingo, 16 de setembro de 2007

A Maldição do Campeão

Certa vez, eu e meu colega de cornetagem, Bruno, conversávamos sobre algumas das peculiaridades do futebol, vocês sabem, aquelas características que fazem do esporte bretão o mais belo, emocionante, poético e místico dentre todos os demais. Após vários argumentos, alusões e recordações, ambos chegamos a uma mesma conclusão: no mundo da bola, as leis estabelecidas pelas ciências não se aplicam de forma regular e previsível. Vejam, não estou dizendo que o futebol é totalmente sem nexo. Com efeito, as leis da lógica, da matemática e da física funcionam, como queria Kant, de forma necessária e universal durante a maior parte do tempo em que a bola rola. Contudo, existem alguns momentos, instantes de dimensão imensurável, durante os quais o futebol parece ser regido por algum tipo de deus do caos, que faz com que todas as supracitadas ciências falhem retumbantemente na tentativa de explicá-los racionalmente. Em tais momentos, temos a impressão de que os deuses sérios saem de férias e deixam o poder esférico nas mãos de uma espécie de Dioniso de chuteiras, ou de algum anjo decaído que possui os poderes de Hiro Nakamura. O fato é que a configuração espaço-temporal mostra-se totalmente distorcida e ainda não surgiu nenhum Einstein da bola que fosse capaz de explicar esses desvios.

Foram exatamente essas meditações cornetísticas que nos deram a idéia de criar a seção “Improbabilidades Infinitas”, um espaço onde nos propomos a relembrar e comentar os momentos e fatos mais estranhos, inacreditáveis e inexplicáveis do ludopédio. Nesta presente cornetagem, tratarei de uma coisa extremamente menosprezada por todos, ironizada pelos racionalistas de plantão, chamada de sobrenatural, fictícia, fruto de mentes delirantes. Não faltará quem me acuse de apreciador de filmes B tipo “Colheita Maldita” e das satânicas canções do Iron Maiden e afins. Mesmo assim, tenho de dizer que estou absolutamente convencido de que, pelo menos no terreno do futebol, ela existe e deve ser temida. Estou falando da maldição.

Ao procurarmos os exemplos e manifestações mais recentes de Lúcifer no mundo da bola, vamos parar direto na Europa, mais precisamente na UEFA. E este é um momento oportuno para falar sobre isso, uma vez que a nova temporada da Champions League, reduto mais badalado do momento para os corvos ludopédicos, está prestes a começar. A primeira pergunta que surge quando se inicia um certame é aquela de sempre: quem será o campeão? Liverpool, Chelsea, Manchester, Real Madrid, Barcelona, Internazionale? Muito difícil responder. Arriscar um palpite a essa altura é dar um tiro no escuro. Estou fora. Todavia, há algo que eu posso afirmar com segurança e sem medo de errar: o Milan NÃO será campeão.

Alguém logo perguntará: “Por quê? Existe uma razão que justifique essa afirmação temerária?”. Eu respondo: razão, razão mesmo não há. Contudo, existe sim e sem sombra de dúvidas... uma maldição: a “Maldição do Campeão”. Não é brincadeira, é fato: desde a temporada 1992/93, quando a antiga Copa dos Campeões da Europa passou a se chamar UEFA Champions League e a ter o presente formato, jamais um clube se sagrou bi-campeão. E mais: ao longo dessas quinze temporadas, apenas três campeões chegaram à final no ano seguinte ao título: Milan (94/95), Ájax (95/96) e Juventus (96/97). Fora isso, o melhor resultado de um campeão foi ter alcançado a semifinal: Borussia Dortmund (97/98) e Real Madrid (00/01 e 02/03). Os outros nove campeões caíram todos prematuramente.

E a coisa parece estar se agravando cada vez mais. No século 21, com exceção do Real Madrid, nenhum campeão chegou sequer à semifinal. O melhorzinho foi o Bayern que, em 01/02, chegou às quartas de final. Quanto aos outros,... uma tragédia pior que a outra.

Vejam só a história da temporada 03/04 e me digam se a coisa não ultrapassa os limites da razão. Nesse ano, a coisa foi tão feia que a maldição atingiu não apenas o atual campeão, como também o vencedor retrasado. O Real Madrid, que erguera a taça em 01/02, fazia uma boa campanha e chegou às quartas para enfrentar o inexpressivo Mônaco, cujos principais jogadores eram Morientes e Giuly (!!). Com Zidane, Figo e Ronaldo (em forma), o Real venceu a ida por 4x2, no Santiago Bernabeu. Fatura liquidada, certo? Diga isso para os corvos malditos. No jogo de volta, o time do principado fez 3x1, com direito a gol de letra do Giuly (!!!). Real eliminado pela regra dos gols marcados fora de casa.

Agora, se isso ocorreu com o campeão de dois anos antes, imaginem o que os corvos reservavam para o pobre Milan, ganhador do ano anterior. Os italianos, também nas quartas, pegaram o Deportivo La Coruña. Primeiro jogo, em San Siro: Milan 4x1. Festa rossonera: a vaga na semifinal estava garantida. Mas, no caminho havia uma... maldição. Carlo Ancelotti foi à Galícia crente de que bastava administrar o jogo. E que bela administração! No intervalo, o Deportivo já enfiava 3x0, placar suficiente para lhe garantir a classificação. Ainda assim, na segunda etapa, Fran teve tempo para decretar os 4x0. As semifinais do torneio foram: Chelsea x Mônaco e La Coruña x Porto. Estes foram os primeiros indícios de que 2004 se configurava como o ano da zebra no calendário ludopédico, o que foi confirmado logo em seguida com a conquista da Libertadores pelo Once Caldas e da Eurocopa pela Grécia. Ah, já estava me esquecendo: na final, o Porto bateu o Mônaco por 3x0. Um dos gols foi de... Carlos Alberto! (Sim, ele mesmo, do Corinthians, do Fluminense,...).

Chegamos então à temporada 04/05. O Porto quase caiu na primeira fase (o que seria inédito para um campeão). Uma vitória na bacia das almas contra o Chelsea evitou o pior. Mas nas oitavas não teve jeito: maldição. Na ida, em casa, 1x1 contra a Inter. Na volta, no Giuseppe Meazza (afinal, San Siro é o campo do Milan), 3x1 para os italianos.

Em 05/06, o Liverpool defendia o título, após consumar uma das maiores improbabilidades infinitas da história. Na final do ano anterior, foi para o intervalo tomando de 3x0 do Milan. No segundo tempo, o milagre: 3x3, seguido da vitória nos pênaltis, com Dudek no gol (ah, é uma improbabilidade mais infinita que a outra). Entretanto, no ano seguinte, isso já fazia parte do passado e os Reds tinham um adversário mais poderoso do que o Milan ou qualquer outro grande clube. Na primeira fase, tudo até que ia bem: Rafa Benítez cantou Don’t Let Me Down para os corvos e seu time terminou em primeiro lugar num grupo que tinha o Chelsea. Nas oitavas, encararia o inofensivo Benfica. Inofensivo em situações normais, mas desta vez os portugueses tinham o Sobrenatural de Almeida como seu fiel escudeiro. Resultado: duas derrotas dos Reds, sem marcar nenhum gol, incluindo um 2x0 em pleno Anfield Road. Essa temporada acabou por consagrar o Barcelona e mais uma improbabilidade infinita: na final, 2x1 sobre o Arsenal, de virada. Quem fez o gol do título? Sim, ele mesmo... BELLETTI.

A temporada 06/07 pintava como a grande chance de se pôr fim às lucubrações satânicas que vinham assombrando a liga há tantos anos e mandar os corvos de volta às profundezas do limbo. Afinal, o Barça, um império de tradição ludopédica, dono de um verdadeiro timaço, parecia ser à prova de maldições. “Més que un club!”, bradam os catalães. “Més que una maldición!”, bradaram os corvos. A tragédia blau-graná já começou no sorteio: um grupo com Chelsea, bi-campeão inglês, e Werder Bremen, vice alemão. E tudo ficou realmente complicado após as batalhas (literalmente) contra os Blues. A derrota em Standford Bridge e o cruel 2x2 no Camp Nou, com aquele gol do Drogba aos 45 da etapa final, colocaram o Barça em terceiro lugar. Só que aí, os corvos resolveram dar uma breve trégua. Os catalães passaram para o mata-mata, graças aos 2x0 sobre o Bremen, com gol de Gudjohnsen e tudo (ah, essas improbabilidades não acabam mais). Mas então veio o Liverpool e a maldição deu as caras de novo. Derrota por 2x1 de virada, em pleno Camp Nou, com gol de pé direito do Riise (!!). Na volta, o Barça foi bravo e venceu por 1x0, gol de... pois é, Gudjohnsen. Inútil: os gols fora de casa foram fatais.

Resumo da ópera: os tifosi milanistas podem ir colocando as barbinhas de molho. A festa, após a vingança contra o Liverpool, foi boa enquanto durou. Agora, a nova temporada promete ser negra, pelo menos no que se refere à Champions League. A primeira fase até que deve ser tranqüila, contra Benfica, Celtic e o poderosíssimo Shakhtar Donetski. Mas depois é que eu quero ver. Se o Milan cair nas oitavas, alguém ainda duvidará dos poderes sinistros que rondam os gramados europeus? E não adianta matar os corvos. Satanás ludopédico enviará outras aves agourentas para nos assombrar. A Maldição do Campeão é real.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Apologia do Impedimento

“... está na hora de acabar de uma vez por todas com a tal lei do impedimento (...). Só o fim desse mandamento devolveria uma certa graça às artes ludopédicas. Paralisar uma linda jogada apenas porque um atacante está com o nariz além do beque é um atentado à existência. Imagine quantos gols teríamos a mais nas partidas! Seria fabuloso, de encher os olhos, mesmo com a escassez de craques momentânea. O fim da regra maldita devolveria o futebol às suas origens, daria o charme da pelada e a classe do gol de banheira. Acabaria com a tristeza que toma conta dos estádios e das várzeas, que melancolicamente seguem as regras do futebol profissa”.

Eis um trecho da coluna de Xico Sá na Folha de 24/08/2007, intitulada “Pelo fim da lei do impedimento”. Em primeiro lugar, devo dizer que adoro os textos desse brilhante escritor, conhecedor mais profundo da alma ludopédica e, em minha opinião, melhor cronista de futebol do Brasil atualmente. E digo mais do que isso: invariavelmente concordo com suas opiniões que, sempre originais e espirituosas, costumam chocar os nojentos repetidores de chavões, política e idiotamente corretos. Posto isso, fica bem claro que não será por falta de respeito e admiração pelo escritor que afirmarei o seguinte: ao escrever o supracitado texto, Xico definitivamente não estava em plena posse de suas faculdades mentais e cognitivas.

Em segundo lugar, digo que discordarei de Xico e tentarei refutá-lo fazendo uma apologia do impedimento. Mas que fique claro que não será uma apologia no sentido usual e vulgar do termo, a saber, “elogio” ou “louvor”, mas peço que seja considerada a acepção primária da palavra: “defesa”, termo jurídico. Digo isso para que todos saibam que não sinto a menor simpatia pelo meu “cliente”. De fato, a lei do impedimento é realmente confusa, chata, caduca e capaz de enfurecer o mais estóico dos torcedores, se é que há algum torcedor estóico. Contudo, aqui se aplica o velho princípio do “ruim com ele, pior sem ele”: o impedimento é um mal necessário. Explico porque na seqüência.

Xico diz que, com o fim do impedimento, o número de gols aumentaria consideravelmente. Isso é verdade, mas apenas no curto prazo. No primeiro momento, os atacantes iriam deitar e rolar sobre os atônitos beques adversários, que ficariam completamente perdidos, zanzando dionisiacamente pela cancha defensiva. Fazer gols passaria a ser uma tarefa facílima. “Mas então você concorda com o Xico”, alguém dirá. Eu respondo que não e começo dizendo que o aumento do número de gols por si só não pode ser declarado uma vantagem, sem maiores considerações. Ora, tudo que é fácil é bom no começo, mas depois de pouco tempo perde a graça, perde o tesão. Por acaso alguém fica cheio de si ao “conquistar” uma vagabunda qualquer? Ou não seria mais gratificante levar para a cama aquela mulher difícil, que dá fora em todo mundo? Jogos com oito, nove gols são legais de vez em quando para quebrar a rotina, mas se virassem regra, ficariam cansativos. Por acaso alguém gosta de assistir a jogos de handebol? Saem trezentos gols para cada lado e o jogo é chatíssimo. É tanto gol que fica chato. E mais: se esses gols não fossem bonitos (e de fato não seriam, como veremos a seguir), não adiantaria nada aumentar a sua média. Para aumentar o número de gols de canela e de bate-rebate é melhor não aumentar.

E é justamente uma piora na qualidade do futebol jogado e dos gols marcados que o fim do impedimento acarretaria como efeito a longo prazo. Todos sabem que a necessidade é a mãe das invenções. A lei do impedimento cria dificuldades terríveis para os jogadores de ataque e os obriga a desenvolver técnicas sofisticadíssimas no que diz respeito à noção do tempo de bola, aceleração, visão de jogo, força do passe e rapidez de raciocínio. Qualidades que fazem de Zidane, Alex e Riquelme gênios da armação, Careca, Romário e Van Basten gênios da grande área. No entanto, sem o impedimento, nenhuma dessas habilidades seria lapidada naqueles que possuem o dom, tampouco desenvolvidas pelos menos prodigiosos. Qualquer caneludo poderia se transformar em artilheiro, qualquer beque-de-fazenda despontaria como novo Gérson, uma vez que todo chutão para frente serviria de assistência para os atacantes, livres, mandarem para as redes. A magia e a beleza de um passe milimétrico, aquele que deixa o centroavante sozinho e ao mesmo tempo em condições de jogo, desapareceria. A inteligência do atacante que faz que vai, não vai e acaba “vando”, deixando os beques de braços erguidos, clamando por um impedimento inexistente, seria obscurecida pela força bruta dos pernas-de-pau que só sabem trombar nos adversários. Resumindo: os brucutus ganhariam ainda mais terreno e os craques se dissipariam definitivamente na neblina, nas trevas do passado ludopédico. Por isso eu digo que os gols, ainda que aumentassem em número, perderiam em qualidade e beleza.

Mas tudo o que foi dito nos parágrafos anteriores parte de um pressuposto oculto assumido por Xico em sua análise, a saber, de que, mesmo com o fim do impedimento, as defesas continuariam jogando da mesma forma que antes. Eu digo, porém, que isso ocorreria apenas no começo. Não demoraria muito para aparecer um “professor pardal”, de prancheta em mãos, concluindo que a única maneira de impedir que sua equipe, tecnicamente fraca, tomasse uma lavada de um adversário forte seria pôr em prática uma nova estratégia, a única possível para se evitar uma avalanche de gols no novo sistema. No jogo seguinte então, tal gênio revoluciona o futebol, escalando a linha de quatro zagueiros fixa e atrás da própria grande área. Mais três volantes na frente protegendo a zaga e pronto: uma barreira intransponível de sete marcadores impede qualquer trator de romper o ferrolho. Na seqüência, nosso amigo faz escola e, a partir daí, o futebol vira “gol a gol”. Afinal, como é impossível furar o bloqueio, única chance de se anotar um tento é abusar da famosa “ligação direta”. Tome chutão, tome bate-rebate, tome brucutu no ataque. Escanteios e faltas próximas da área passam a valer ouro. De modo que o efeito final seria exatamente o oposto do descrito por Xico: os gols iriam rarear ainda mais. E pior: todo tento, sem exceção, seria fruto de um bololô na área ou de um chute de longe. Jogada trabalhada, tabela, passe de primeira... só em filmes de idos remotos.

Nesse estágio, o football inglês, nosso amado ludopédio, estaria a um passo de se tornar um futebol americano jogado com os pés. Não tardaria para que as equipes fossem divididas em duas: time de ataque e time de defesa. Em pouco tempo os jogadores passariam a atuar dentro de armaduras e capacetes, uma vez que os choques seriam cada vez mais freqüentes. Então só faltaria abolir o goleiro, tirar o travessão e trocar a bola redonda pela oval.

Por essas e outras é que eu sempre dou graças aos deuses ludopédicos pelo fato do futebol ter sido inventado na Inglaterra. O conservadorismo ferrenho dos anciões da International Board é de fato uma benção. Já pensou se fosse no Brasil, com toda essa tara por inventar leis, mudar leis, emendar leis, acabar com leis, recriar leis, não cumprir leis? Após um século e meio de vida, o futebol já teria se transformado em alguma espécie de pólo no gelo, com cavalos de patins e tacos de baseball. No fim, estaria certo o rei inglês daquele vídeo do Bruno: “Pega o cavalo! Aí vai com o cavalo! Corre com o cavalo...”.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Continuando a Afinar a Corneta


Vou seguir a grande sugestão apresentada pelo Bruno: roubar as idéias dos outros na maior cara de pau. Aliás, para quem conhece o mundo da filosofia, essa deve ser uma prática bastante familiar. Assim, na presente cornetada, farei um plágio descarado da fórmula criada pelo próprio Bruno e mudarei apenas o conteúdo, abordando as equipes que não foram analisadas por ele. Devo advertir, porém, que tudo que eu disser aqui e que foi dito pelo Bruno antes pode ir por terra nos próximos dias, uma vez que esse fechamento da maldita “janela européia” não chega nunca e vários Shaktars Donetskis da vida continuam à espreita, prontos para levar embora o pouco que restou dos nossos futebolistas.

Todos sabem que o sistema defensivo e o trio de zaga são os pontos fortes do São Paulo. Falemos então dos problemas: o comando do ataque e os jogadores “vai-vai-vai... não vai”. É impressionante a teimosia do Muricy ao insistir nesse Aloísio, um centroavante que não marca gol, não sabe passar, não sabe dominar a bola, não sabe chutar e nem cabecear (a não ser de ombro). O Diego Tardelli, amordaçado, algemado e com os dois pés amarrados, joga mais do que ele. E aliás, o Tardelli sempre entrou bem nos poucos minutos em que teve oportunidade. Contudo, me parece que ele continua sendo punido pelos erros que cometeu em sua primeira passagem pelo tricolor. Mas, mesmo que o Muricy não goste do Tradelli, ele poderia então colocar o Borges, que não é uma maravilha, mas pelo menos marca uns golzinhos de vez em quando. De qualquer modo, uma coisa é certa: ALOÍSIO NÃO DÁ.

Outro karma dos são-paulinos: aqueles jogadores broxantes, que pegam a bola, fazem o diabo, deixam o torcedor com o grito de gol engatilhado, mas, na hora H... não vai. O pior de todos é o Jadílson: corre, corre, corre e... nada. Esse jogador consegue manter a incrível média de NENHUM passe certo por jogo. Graças a deus ele é reserva, mas sempre acaba entrando quando Muricy precisa de um lateral esquerdo de ofício (e Júnior fica no banco!). Bom, mas não pára por aí: tem também o Souza. Tudo bem, não há outro cara capaz de atuar na ala direita, não tem ninguém melhor do que ele no banco etc, mas que é irritante é: Souza pega a bola, dá um drible espetacular, passa por dois, corre, corre, corre e... nada. Nenhuma jogada é concluída. Por fim, tem ainda o Leandro: corre, pula, gira, vira, tropeça, capota, cai, levanta, planta bananeira, dá cambalhota, se joga na bola, levanta de novo, ginga, dança, canta, batuca, corre, corre, corre e... nada. O Dagoberto, mesmo em péssima fase, joga mais. Resumo da ópera: Tardelli e Dagoberto, a dupla de ataque ideal, nunca jogaram juntos e, a se julgar pela teimosia do técnico, jamais jogarão. Os são-paulinos terão de continuar aturando Leandro e Aloísio e suas caneladas, joelhadas, tornozeladas e chutes que vão parar na bandeira do escanteio. Mesmo com tudo isso, o tricolor é ainda o principal candidato ao título.


O Cruzeiro é o inverso do São Paulo: joga para frente e o ataque é muito bom, em grande parte devido à ofensividade do seu meio campo. Os habilidosos volantes, Charles e Ramires, são na verdade meias que atuam mais recuados. Os meias, Leandro Domingues e Wagner, são verdadeiros atacantes. Por isso, não dá nem para culpar a zaga pela elevadíssima média de gols sofridos, uma vez que ela fica o tempo todo exposta. De qualquer modo, esse estilo de jogo suicida funciona e passou a funcionar ainda melhor com a entrada de Alecsandro, um ótimo ruim-que-faz-gol. Alguém pode dizer que Alecsandro só marca muitos gols justamente porque o time ataca o tempo todo. Não é verdade. Ele marca gols porque sabe marcar gols. Simples assim. Veja o exemplo do São Paulo: embora privilegie a defesa, em alguns jogos, como no último contra o Goiás, o tricolor cria várias oportunidades de gol. O problema é que seus atacantes acertam uma a cada 5983 finalizações. Podem ter certeza do seguinte. Se jogasse no Cruzeiro, o Aloísio não faria gols, como não faz no São Paulo, fossem quantas fossem as oportunidades. Se jogasse no São Paulo, Alecsandro faria muitos gols, como faz no Cruzeiro, mesmo tendo poucas chances. A Raposa é o maior adversário do São Paulo.


Embora seja uma equipe tecnicamente fraca (quem hoje não seria?), o Vasco joga com consciência, justamente porque sabe reconhecer suas limitações. Isso faz dele um time bastante eficiente, principalmente dentro de São Januário, onde empatou uma e venceu todas as demais partidas. O ponto de apoio do time é Perdigão (isso não é uma ironia), jogador que faz mais ou menos a função que Tinga fazia no Internacional e que até pouco tempo Josué exercia no São Paulo: organizar o meio campo e ditar o ritmo do time. Claro, além disso, Perdigão também é mestre no “marca, marca!”, “só cerca”, “abre, abre” e seus afins, o que não deixa de ser mais uma qualidade indispensável. Outras virtudes do time são: o volante argentino Conca e o apoio do ala direito Wagner Diniz. Contudo, a principal arma cruz-maltina é Leandro Amaral. Deixando-se de lado o purismo e considerando-se que o conceito de “craque” é relativo, Leandro é hoje, no contexto atual do futebol brasileiro, um craque. Afinal, ele é muito mais do que um mero ruim-que-faz-gol (me perdoe pelo “mero”, Bruno): ele sabe passar, tabelar e participa da criação das jogadas, além é claro, de fazer gols. Resumindo: faz quase tudo que Aloísio não faz (digo “quase”, pois um jogador que fizesse TUDO que Aloísio não faz seria um gênio maior que Pelé). O Vasco pode até brigar pelo título e deve ficar com uma vaga na Libertadores, a não ser que Romário resolva voltar e/ou que o Shaktar Donetski continue com sua impiedosa espoliação no Brasil.


O time do Grêmio que foi à final da Libertadores já era bem fraquinho. Agora a coisa piorou ainda mais com a saída de Lúcio (isso não é uma ironia) e com a terrível queda de rendimento do Tcheco (“queda de rendimento” nesse caso pode ser entendida como “volta ao estado normal”). E a tendência é que o time piore mais ainda com a saída de Carlos Eduardo, único jogador verdadeiramente talentoso da equipe. Mas o grande problema é aquele mesmo do São Paulo e da maioria dos times: ausência de um ruim-que-faz-gol. Tuta e Marcel, juntos e ainda adicionados a Aloísio, não somam um terço de centrovante. Se conseguir uma vaga na repescagem da Libertadores já estará de ótimo tamanho.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Pecados Alvinegros



"Sabe, cada vez mais eu acho que essa história de o botafogo jogar o futebol mais bonito do país é coisa de carência de carioca".
"Não, hmpf, com certeza. Vc acha"...
GOOOL!
"É claro que sempre existe a possibilidade de eu estar errado".

O dialógo acima foi realizado entre eu e meu amigo Wally ontem no começo do jogo Corinthians e Botafogo. Justo quando discutiamos o exagero aos elogios a equipe carioca, o Botafogo emplacou uma triangulação "de quadro negro", perfeita, pelo setor esquerdo da defesa corinthiana e, em menos de 30 segundos, abriu o placar no Maracanã. Logo no começo do jogo, o Corinthians (jogando num 4-4-2) foi obrigado a sair mais para o ataque e sua marcação, que já se mostrara ineficiente na primeira jogada do botafogo, se perdeu completamente e o botafogo teve completo domínio do meio de campo. O Botafogo compensava a falta de um legítimo homem de "cadencia" no meio de campo com uma movimentação constante, toques curtos e triangulações rápidas pelas laterias do campo. Sem dúvida, o Botafogo pode ser considerado o time mais "entrosado" do futebol brasileiro. Já no Corinthians, Gustavo Nery estava completamente omisso. Encarregado de dar o toque de qualidade no meio de campo, o jogador nada fez. Nem armou, nem ajudou na marcação, de forma que Joílson e seus companheiros passavam facilmente em seu setor. Aliás, o único setor do campo pelo qual o Botafogo realmente levava perigo ao alvinegro paulista. Já que o veterano Athirson, sem ritmo e sumido na ala esquerda, deixava o time "penso". Sem toque de bola, as partidas do Corinthians ao ataque se limitavam as carregadas de bola de Rosinei, que eram pouco efetivas, visto que o jogador era obrigado a vir buscar a bola em seu campo de defesa. Era só uma questão de tempo para o segundo gol do Botafogo. E ele veio aos 30 minutos em cobrança de falta de Lúcio Flávio. Falta na qual o Botafogo, que tanto chorou contra as arbitragens (embora, "estranhamente", não tenha nada a reclamar do tribunal esportivo), foi ajudado pelo arbítro que deveria ter marcado o impedimento de André Lima que já havia sido lançado por Jorge Henrique (antes que esse fosse derrubado).
No segundo tempo, o Botafogo voltou a campo com Ricardinho no lugar de Athirson. Agora, contando com um ala esquerdo, o Botafogo pode alargar ainda mais o campo e envolver ainda mais a marcação corinthiana em seu toque de bola. Tamanho foi o envolvimento que Carlos Alberto (completamente tonto) ao tentar recuar uma bola de cabeça para Felipe, acabou lançando André Lima que fez o terceiro gol do alvinegro carioca logo aos 7 minutos do segundo tempo. O restante do jogo foi de domínio pleno do Botafogo. Carpegiani tentou mudar o time com a entrada de Bruno Bonfim e Wilson, mas em nada alteraram o mando do Botafogo sobre o jogo. Contudo, conforme o segundo tempo foi passando, faltou ao Botafogo um pouco de "copismo". O time carioca se negou a tirar a velocidade do jogo ou a se fechar. Contudo, devido a um certo abuso no preciossismo das jogadas, acabou também por não fazer o quarto gol. E, permitiu assim, que, em cruzamento de Wilson, Bruno Bonfim desse sobre-vida ao Corinthians.
Que o Botafogo traz uma boa vantagem para São Paulo (pode perder até de 1 a 0) e é favorito, isso é. Porém, o time carioca, ao pecar pela soberba e pelo preciosismo, deixou de decidir a sua classificação em um jogo no qual foi muito superior a seu adversário. Agora, cabe ao time do Botafogo fazer um jogo inteligente (o que não quer dizer defensivo, muito pelo contrário) em São Paulo. E aos torcedores do Botafogo orar aos deuses ludopédicos para que perdoem o time de seus pecados capitais.

Bruno (que está precisando dormir mais...)

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Afinando a Corneta...


Bom, depois de muito tempo, vou assistir a um jogo completo e com atenção e fazer a autópsia do jogo. Mas, enquanto isso vou afinando minha corneta com algumas melodias curtas... (uma espécie de "pre-cornetada" da rodada).
Botafogo: Devo admitir que vi apenas um jogo do Botafogo nesse campeonato brasileiro. Contudo, estou por dentro de todo o "endeusamento" da imprensa (especialmente a carioca) feita ao time da estrela solitária. Embora não tenha observado muito o Botafogo jogar, tenho alguns motivos "a priori" para duvidar dessa classificação de "time do futebol bonito". A primeira delas, obviamente, é que na atual fase pragmática (para ser simpático) do futebol mundial, não é preciso de muito para ser considerado um time que joga bonito. Some-se a isso ao péssimo desempenho dos clubes cariocas nos últimos anos e pronto: têm-se um solo mais do que propício para um exagero midiático. O terceiro motivo, e o mais forte deles, é que o botafogo parece ignorar um axioma fundamental do futebol: "um grande time começa por um grande goleiro". E axiomas podem cobrar um preço muito alto ao serem ignorados. O próprio Botafogo já experimentou isso na copa do Brasil. Esqueça a bandeirinha (faça um esforço!), o que custou ao Botafogo a classificação para a final da Copa do Brasil foi o frangaço de seu goleiro). Se o Botafogo quiser continuar nas primeiras posições da tabela esse ano precisa contratar um goleiro. Urgente. Agora, para continuar na parte superior nos anos posteriores, será preciso contratar um treinador de goleiros. Também urgente!

Corinthians (parte 1): O Corinthians parece finalmente ter encontrado um pouco de equilíbrio no campeonato. Um modelo simples (e perfeito!) para a explicação de tal fato, foi me fornecido pelo colega corneteiro Dênis e eu o roubarei na cara dura. É só se lembrar do que acontece quando vc, já marmanjo, invade, na cara de pau (por culpa de sua Síndrome de Peter Pan), o racha daquele seu irmão/sobrinho/primo e de seus amiguinhos de primário. Lembre-se do olhar que as criancinhas lhe dirigiam e de como você não precisa jogar nem 10% do que elas acreditam (baseadas em seu tamanho e idade) que você joga. Bastava ficar gritando coisas como "só cerca", "calma, calma", "marca lá" e pronto: você era o principal responsável pela vitória do time no qual entrava.
Guardadas as devidas proporções é isso que está acontecendo no Corinthians com a entrada de Vampeta, Ricardinho, Finazzi e Gustavo Nery no time titular. E, convém ressaltar, os quatros estão fazendo muito mais do que só gritar "só cerca", "calma, calma" e "marca lá".

Corinthians (parte 2): Os puristas, os estratégistas e os estetas do futebol que me desculpem, mas o ruim-que-faz-gol e o beque-de-fazenda são fundamentais. Não sei onde Carpegiani estava com a cabeça ao tirar o Finazzi (também conhecido como "o atacante da segunda divisão) do time titular. Atualmente no país, o atacante corinthiano é o mais icônico representante do ruim-que-faz-gol e não pode ser sacado do time. Quer uma prova de que o jogador se encaixa nessa categoria? Basta se lembrar dos melhores momentos do jogo contra o Botafogo. Repare nas chances que Finazzi teve, qual foi a que ele concluiu em gol e qual foi que ele errou... Agora, caso Betão (que é beque-de-fazenda até no nome) retorne contra o Botafogo, o Corinthians, com a defesa mais estável do que a que foi pra Caxias do Sul, tem tudo para complicar o jogo para o time da estrela solitária. Contudo, vai depender, é claro, de quantos (e quais) dos "knockin' on the heaven's door" citados acima terão condições de jogo.

Palmeiras: Na minha opinião, o Palmeiras tem seu melhor time das últimas temporadas e uma chance clara de obter uma vaga na libertadores da América. Contudo, o Palmeiras também sofre de uma certa falta de estabilidade psicológica. Tudo bem que Edmundo pode até tentar cumprir essa função, mas todos nós sabemos que Edmundo não é nenhum modelo de estabilidade... Como o Palmeiras não deve contratar mais ninguém, talvez Caio Júnior consiga encorajar alguém a assumir essa função. Minha aposta: Martinez. Ele parece ter todos os requisitos técnicos não só para cadenciar o jogo, mas também para cadenciar os espíritos de seus companheiros. É um investimento a longo prazo, é claro, mas pode garantir a classificação para a libertadores e, quem sabe, até uma campanha convincente (ou pelo menos "não-vexatória") no torneio continental do ano que vem.

Santos: No que diz respeito ao Santos não tenho muito a dizer. Mesmo com os altos e baixos de Pedrinho e que Pet nunca encontre seu futebol, o retorno de Maldonado dará estabilidade a defesa. Com Kleber no meio ou na lateral, e Kleber Pereira no ataque, o Santos tem tudo para continuar sua jornada de recuperação.

Bruno (que não está vendo o jogo da seleção, que está passando agora, mas espera que algum dos outros membros desse blog esteja...)

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Projeções


Daqui a cinco anos, quando Kaká, aos 29, e Robinho, aos 28, forem os veteranos da Seleção Brasileira, quem serão seus companheiros?

Se der a lógica, Alexandre Pato, que, como profissional, ainda nem mesmo atingiu a marca de trinta partidas disputadas, será a companhia de Robinho lá na frente. Pelo pouquíssimo que se pode ver do novo reforço do Milan, Pato é o mais completo centro-avante que os gramados brasileiros produziram desde Romário. Sim, desde Romário, porque Ronaldo, embora ótimo em quase tudo, cabeceia tão bem quanto eu, ou seja, fechando os olhos e batendo com o topo da cabeça na bola. Em relação a esse fundamento, Pato leva vantagem até mesmo sobre Romário, já que é dez centímetros mais alto que ele e, além disso, pode ficar ainda mais alto, já que só tem 18 anos. Pato tem 1,79m, Romário, 1,69m.

É claro que não é possível garantir que Alexandre Pato não sofrerá os mesmos problemas que Ronaldo: contusões sérias, excesso de peso e vida pessoal conturbada. Mas, enfim, se nada disso acontecer e se der a lógica, Pato será o dono inquestionável da camisa nove na Seleção Brasileira por longos anos.

Mais atrás, armando o time, talvez não haja uma promessa à altura de Alexandre Pato, à altura da segurança que ele passa, embora tão jovem. E isso é preocupante. A falta de bons (nem digo ótimo) meias armadores no futebol mundial é crônica. A meu ver, hoje há apenas quatro bons armadores em atividade: Kaká, Riquelme, Alex e Lampard. Mas nenhum deles está no nível que teve, em sua melhor forma, a geração anterior, representada por ninguém menos que Zidane e Nedved.

Anderson, que agora vai reforçar o Manchester United, tem um longo caminho a percorrer até que merecia, de fato, as comparações que fizerem entre ele e Ronaldinho Gaúcho, quando de sua aparição, em 2004, disputando a segunda divisão do campeonato brasileiro, pelo Grêmio. Contra ele, pesará a forte concorrência por uma vaga no time titular inglês. Jogando pouco, é bem provável que as comparações entre ele e o astro do Barcelona limitem-se à aparência física, característica em que ambos são realmente semelhantes, embora até nisso o mais velho seja mais... Mais feioso.
Nego-me veementemente a falar de Wilian e Lulinha, ambos do Corinthians. Embora já exista um exagerado alvoroço em torno desses jogadores, nenhum deles mostrou, jogando entre os profissionais, a que vieram. Wilian ainda amarela. Lulinha nem sabe a cor da bola. Se não estivessem num time que desmorona política, financeira, moral e futebolisticamente, certamente os dois ainda estariam nas categorias de base, tendo lições sobre como fazer a barba – que ainda virão a ter.

A única unanimidade para a vaga de volante é Lucas, ex Grêmio e agora no Liverpool. Hernanes, do São Paulo, Denílson, do Arsenal, e Marcelo Matos, em algum lugar da galáxia, devem brigar entre si para acompanhar o loirinho. Mas se Dunga continuar sendo técnico do Brasil daqui a cinco anos, é até possível que os quatro joguem juntos. Quanto aos três últimos, nenhum é ótimo. Hernanes, por exemplo, embora seja um jogador extremamente versátil e tenha uma boa técnica, não tem na marcação o seu ponto forte. Como no São Paulo ele costuma jogar acompanhado de Josué, esse problema se ameniza. Marcelo Matos criou muito frenesi quando surgiu. Mas, depois, mostrou ser apenas o razoável volante de uma equipe medíocre. Denílson pouco jogou tanto no São Paulo quanto no Arsenal. Mas é justamente sua precoce saída do Brasil para um dos maiores times europeus que o credenciam a constar na lista de prováveis futuros selecionáveis. Além desses quatro, tem chamado atenção o jogador Wendel, do Palmeiras – o Palmeiras é aquele time que usa um uniforme verde. É versátil e tem boa técnica, mas ainda é cedo demais para dizer qualquer coisa sobre seu futuro.

Nas alas, ou laterais (não farei distinção aqui), Ilsinho, ex Palmeiras e São Paulo, mas agora na Ucrânia, deverá, se retomar o ótimo futebol que mostrou nos primeiros meses de São Paulo, com muita técnica e agressividade, o jogador que colocará Cafu, em definitivo, no baú do esquecimento. Pela esquerda, pelo mesmo motivo que relacionei o volante Denílson, relaciono Marcelo, do Real Madrid, mas confesso que não o conheço. Sem a concorrência de Roberto Carlos, é bem provável que o brasileiro, se for realmente bom, firme-se como titular da lateral esquerda do time madrileno. O jeito é aguardar e torcer para que ele seja realmente bom, já que o futebol brasileiro está, de uns tempos para cá, produzindo pouquíssimos laterais esquerdos de qualidade. Para se ter um exemplo, Adriano, o bom lateral esquerdo do Sevilha, é destro, e não canhoto, como seria o ideal.

Na zaga, o jovem trio de zaga atual do São Paulo surge com muita força. Miranda, Breno e Alex Silva, embora bastante jovens, demonstram ser ótimos zagueiros. Todos têm boa técnica, força, impulsão para cabeceio, noção de posicionamento, tempo de bola e porte físico. Nisto, Alex Silva leva ligeira vantagem sobre seus concorrentes, já que tem 1,92m. Os outros dois, contudo, não ficam muito atrás: Miranda tem 1,85m e Breno, 1,87m. Dos três, talvez o mais fraco, no sentido geral do termo, seja justamente Alex Silva, que, com suas saídas estabanadas em direção ao ataque, mais lembra uma mistura entre Lúcio e Peter Crouch do que ajuda seu time. Quando se der conta de que não é Messi, muito menos Maradona, Alex Silva será quase perfeito. Além desses três, Teco, do Grêmio, e David, do Palmeiras, também dão sinais de serem bons zagueiros. É esperar para ver se são de fato.

No gol por enquanto não surgiu nenhum nome à altura dos ótimos Dida, Marcos e Rogério Ceni. Felipe, no Corinthians, Bruno, no Flamengo, e Diego, no Palmeiras, andam a fazer um bom trabalho. Vez ou outra, contudo, engolem um frango, saem mal na bola cruzada ou se atrapalham em jogadas simples. Mas que goleiro não toma um frango de vez em quando ou comete outra bobagem qualquer? São karmas da posição. Até mesmo o ótimo Tafarel, herói nas copas de 1994 e 1998, engoliu um belo frango na derrota do Brasil para a Bolívia por dois a zero nas eliminatórias para a copa de 1994. Comparados a Ceni, nenhum deles, assim como nenhum outro goleiro no mundo, passa a segurança do arqueiro são-paulino jogando com os pés. Enfim, daqueles três, elejo Felipe como o mais provável futuro goleiro do Brasil. Vale lembrar que ele vem da mesma escola do Dida, o Vitória, e isso é ótimo sinal. De uma coisa não há dúvida, todos são infinitamente melhores do que Doni.

Se todos esses jogadores confirmarem as boas expectativas que têm criado, daqui a cindo anos a seleção brasileira deverá ter a sua disposição um ótimo time. Kaká e Robinho deverão estar muito bem acompanhados. Mas nós, torcedores, não devemos nos empolgar, pois será preciso esperar pela Copa do Mundo do Brasil para poder vê-los desfilar novamente em terras tupiniquins.

Denis Barbosa Cacique, que, se não se recorda mal, viu sua partida mais recente no dia em que o Brasil ganhou da Argentina, na final da Copa América – 13 de agosto de 2007